Um dos mais singulares olhares portugueses sobre o Oriente — íntimo, melancólico e maravilhado — regressa agora numa antologia que revela toda a persistência espiritual do Japão de Wenceslau de Moraes.
Muito antes de o Japão se tornar fascínio de massas ou mero exotismo turístico, Wenceslau de Moraes mergulhou profundamente na vida japonesa, tornando-se um dos raros ocidentais do seu tempo autorizados a viver de forma prolongada e integrada naquele universo ainda largamente fechado ao exterior. Oficial da marinha, diplomata, cronista e observador apaixonado, Moraes viveu entre Nagasáqui, Kobe e Tokushima, conheceu intimamente a sociedade japonesa, casou-se duas vezes com mulheres japonesas e construiu uma existência suspensa entre duas civilizações, numa entrega quase total ao país que acabaria por adoptar como pátria espiritual. A sua própria vida, feita de fascínio, perda, solidão e contemplação, tornar-se-ia inseparável da obra que deixou.
A Alma Japonesa Persiste — Uma Antologia, com introdução, organização e notas de Vasco Rosa, percorre precisamente essa multiplicidade extraordinária do universo moraesiano. Mais do que um simples livro de excertos, esta antologia funciona como um amplo retrato cultural e humano do Japão observado por um europeu que recusou permanecer simples visitante. Ao longo destas páginas cruzam-se história, religião, etnografia, lendas populares, vida quotidiana, cerimónias, códigos sociais, administração imperial, relações afectivas, literatura, política e psicologia colectiva, revelando um país em profunda transformação entre o fim do século XIX e os alvores do século XX.
Mas aquilo que verdadeiramente distingue Wenceslau de Moraes dos restantes viajantes e orientalistas do seu tempo é o modo como o olhar documental se transforma constantemente em experiência íntima. O Japão que aqui surge não é apenas descrito: é vivido. Moraes observa os pequenos gestos do quotidiano com a mesma atenção dedicada às grandes questões espirituais e civilizacionais; procura compreender os silêncios, os rituais, a delicadeza das relações humanas, a disciplina social, a concepção japonesa da morte, do dever e da beleza efémera. A sua escrita oscila entre o ensaio, a memória, a crónica impressionista e a meditação poética, produzindo uma obra singular na literatura portuguesa.
Embora admirado por gerações de leitores e escritores, Wenceslau de Moraes permanece ainda hoje um autor relativamente menor dentro do cânone literário português, frequentemente reduzido à condição de curioso “escritor do Japão”. Esta antologia demonstra, porém, a verdadeira dimensão da sua obra: não apenas testemunho histórico raro, mas também uma das mais subtis tentativas de diálogo entre culturas produzidas em língua portuguesa. A modernidade do seu olhar — simultaneamente empático, melancólico e crítico — aproxima-o por vezes mais de certos memorialistas e observadores europeus do século XX do que dos cronistas coloniais seus contemporâneos.
Nesta edição, o trabalho de contextualização e anotação de Vasco Rosa permite reencontrar Moraes em toda a sua complexidade intelectual e humana, iluminando referências culturais, enquadramentos históricos e aspectos menos conhecidos da sua biografia e produção literária. A Alma Japonesa Persiste surge assim não apenas como porta de entrada ideal para novos leitores, mas também como uma redescoberta maior de um escritor português cuja voz continua singularmente actual: a de alguém que, entre duas margens do mundo, procurou compreender o outro sem jamais deixar de se transformar a si próprio.
Índice
Apresentação
Guia de leitura
A ALMA JAPONESA PERSISTE
– UMA ANTOLOGIA
Um jantar de festa
A Primavera
O exotismo japonês
[Aviso]
A ALMA JAPONESA PERSISTE
A educação no Japão
A linguagem
[A poesia]
[O budismo]
A vida na família
O amor
PAISAGEM COM MUITAS FIGURAS
A paisagem japonesa
O amor pelos bichos
A beleza das pedras
O meu jardim
Sem cheiro
O vendedor de udon
O cavalo branco de Nanko
No santuário de Kwannon
O tiro do meio-dia (Ainda Ko-Haru)
Crisântemos
O CULTO DO CHÁ
CONTOS E LENDAS
A alforreca
O pardal de língua cortada
Um pintor de gatos
Ninguyo
CEMITÉRIOS JAPONESES
O cemitério japonês
Dois cemitérios japoneses
O barril do lixo do cemitério de Chiyo on-ji
Impressões de um passeio
O túmulo de Atsumori
MADE IN JAPAN
Um triplo suicídio no Japão
«Hisamatsu não está em casa»
Os caranguejos de Dan-no-Ura
A mão e o pé japoneses
FERNÃO MENDES PINTO E O JAPÃO