Fernando Lemos (1926-2019) foi um artista do Surrealismo, cuja obra multifacetada inclui fotografia, poesia, desenho e pintura, áreas que combinou ainda com o design industrial.
Nascido no Rato, em Lisboa, conviveu de perto – por via do pai, que era marceneiro – com operários, fadistas e actores do teatro de revista, mas também com famílias abastadas nas casas onde a mãe trabalhava como governanta. Este ambiente multifacetado foi uma base fundamental da sua aprendizagem e do seu trabalho.
Estudante da então Escola de Artes Decorativas António Arroio, frequentou o curso livre de pintura da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. Em 1949, comprou uma máquina fotográfica Flexaret e começou a trabalhar a fotografia recorrendo a processos muito utilizados na fotografia surrealista (sobreposições, impressões em negativo e positivo), construindo assim uma linguagem de fragmentação da imagem à qual não será estranho o exemplo de autores como Man Ray.
A sua primeira participação oficial enquanto surrealista foi na famosa – e muito controversa – exposição que organizou com Marcelino Vespeira e Fernando de Azevedo numa loja de móveis, a Casa Jalco, no Chiado, em 1952. Pouco tempo depois, dirigiu, com José Augusto-França, a Galeria de Março. Num ambiente que a ditadura salazarista tornava cada vez mais opressivo para o país, Fernando Lemos decide partir aos 27 anos para o Brasil em busca de uma liberdade que dizia chegar a ser «escandalosa» neste país. Do outro lado do atlântico, Lemos foi o primeiro artista a expor fotografias num museu (em 1954), uma vez que até então só o fotojornalismo era comum no país.
Ganhou prémios nacionais e internacionais ao longo dos anos, inclusive na Bienal de São Paulo, mais de uma vez. Dizia orgulhar-se de ter duas pátrias – «uma que me fez e outra que ajudei a fazer e a construir», como repetia com frequência – para as quais trabalhou nos bastidores das instituições de arte e cultura, servindo ainda no domínio da arquitectura e do ensino.
Com uma obra e uma vida multifacetadas - esteve também no Japão com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para aprofundar os estudos caligráficos - assim foi também a sua visão do mundo: enquanto surrealista, Fernando Lemos tratava a realidade a partir de ângulos subtis, mas agudos, e tudo lhe servia de inspiração e impulso para conceptualizar a vida e criar a sua obra: um prato partido, em vez de ir parar ao lixo, merecia um estudo dos fractais; a importância da mão ou da falta dela – da mão que faz o gesto – era mote para uma nova percepção do mundo. Por outro lado, a doença constituía também um impulso para apresentar a necessidade de incluir o que é diverso, uma vez que foi diagnosticado com poliomielite perto dos três anos.
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TANIA MARTUSCELLI é crítica de arte e literatura. Ocupa o cargo de Professora de Estudos Luso-Brasileiros no Departamento de Espanhol e Português na Universidade do Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos da América. Especializou-se nas áreas de Literatura e Cultura dos séculos xix ao xxi em língua portuguesa. A sua investigação centra-se nas vanguardas portuguesas, nos estudos transatlânticos e afro-europeus. Além dos seus livros Mário-Henrique Leiria Inédito e a Linhagem do Surrealismo em Portugal (2013) e (Des)Conexões entre Portugal e o Brasil – Séculos XIX e XX (2016), Martuscelli é organizadora dos quatro volumes das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria (E-Primatur) e co-editora em Portugal da revista E-Letras Com Vida (Universidade Aberta); nos Estados Unidos, é também editora da secção portuguesa e luso-africana da revista Lusophone Studies (Brown University). Colabora ainda com diversas revistas especializadas em arte e literatura no mundo, como a Colóquio/Letras, a Brasil/Brazil, a Modernism/modernity e Portuguese Studies.