Visionário, satírico e provocador, Alfred Jarry abriu caminho às vanguardas do século XX ao transformar o absurdo, a ironia e o excesso em instrumentos de renovação literária.
Alfred Jarry nasceu em Laval, França, em 1873, e morreu em Paris, em 1907, com apenas trinta e quatro anos. Figura excêntrica e lendária da vida literária parisiense, destacou-se desde muito jovem pela inteligência feroz, pelo humor iconoclasta e por um comportamento deliberadamente teatral que rapidamente o transformou numa personagem quase tão célebre quanto a sua própria obra. Frequentador dos meios simbolistas finisseculares, cultivou uma escrita marcada pela sátira, pelo grotesco, pela invenção verbal e por um permanente desafio às convenções morais, literárias e científicas do seu tempo.
A sua obra mais célebre permanece Ubu Roi (Rei Ubu), estreada em 1896, cuja representação provocou um dos maiores escândalos da história do teatro francês. A partir dessa peça — considerada por muitos um dos pontos de partida do teatro do absurdo — Jarry desenvolveu um universo singular que se prolongou em livros como Ubu enchaîné, Le Surmâle, Messaline, L’Amour en visites e sobretudo Gestes et opinions du docteur Faustroll, pataphysicien, obra fundamental onde formulou a célebre «Patafísica», definida ironicamente como a «ciência das soluções imaginárias». A sua escrita mistura narrativa, teatro, ensaio, fantasia científica, erotismo e paródia erudita numa combinação sem equivalente directo na literatura europeia do seu tempo.
A influência de Jarry sobre a modernidade literária e artística foi profunda e duradoura. Os surrealistas reconheceram-no como precursor essencial; André Breton via nele uma figura tutelar do humor negro e da libertação imaginativa, enquanto autores e artistas como Guillaume Apollinaire, Antonin Artaud, Boris Vian, Marcel Duchamp, Eugène Ionesco ou Fernando Arrabal herdaram aspectos decisivos da sua visão estética. A crítica moderna considera-o um dos grandes anunciadores das vanguardas do século XX, antecipando o surrealismo, o dadaísmo, o teatro do absurdo e certas correntes da ficção científica e da literatura experimental. Como escreveu Apollinaire, Jarry foi «a própria imaginação no poder», definição que continua a resumir exemplarmente o lugar singular da sua obra na história literária europeia.