Publicado em 1943, em plena Ocupação nazi de França, este livro reúne alguns dos contos mais emblemáticos de Marcel Aymé, escritor que soube enfrentar um tempo de censura, vigilância e medo recorrendo à imaginação como forma de lucidez crítica.
Longe do panfleto ou da alegoria transparente, Aymé escolhe o desvio, o insólito e o fantástico como instrumentos de observação moral e social.
O célebre conto «O Passa-paredes», em que um modesto funcionário descobre a capacidade de atravessar paredes, é exemplar desse método: o prodígio não conduz à libertação heróica, mas a uma ironia amarga sobre o poder, a submissão e o ridículo das hierarquias. O fantástico surge assim como um prolongamento natural do real, expondo, por exagero ou deslocação, a violência latente do quotidiano.
Outras narrativas da colectânea recorrem ao absurdo, ao humor negro ou a pequenas rupturas da ordem natural para dizer aquilo que o discurso directo não podia dizer. Durante a Ocupação, esta escrita oblíqua permitia falar de opressão, conformismo, arbitrariedade e medo sem nomear explicitamente o ocupante ou o regime, tornando a fantasia um espaço de resistência intelectual.
A força imagética e dramática destes contos explica a sua longa vida para além do livro. Le Passe-Muraille conheceu adaptações ao cinema, ao teatro e à televisão, em França e no estrangeiro, confirmando a extraordinária plasticidade narrativa de Marcel Aymé e a actualidade de uma obra que, sob a leveza aparente, conserva um núcleo profundamente inquietante.
«Sob a aparência da fantasia, Aymé descreve o mundo tal como ele é — intolerável.» — Gaëtan Picon, Panorama de la littérature française
«O fantástico de Marcel Aymé não foge ao real: encosta-se a ele como uma lâmina.» — Le Monde, crítica literária
«Poucos escritores souberam usar o irreal com tamanha precisão moral.» — Italo Calvino, ensaio sobre a narrativa fantástica francesa
«Le Passe-Muraille é uma parábola perfeita sobre o poder e a submissão.» — Les Temps modernes, nota crítica
«Aymé escreve como quem sorri, mas o sorriso é um acto de acusação.» — André Billy, Le Figaro littéraire
«Durante a Ocupação, a imaginação foi uma forma de coragem.» — Jean-Louis Bory, estudo crítico sobre literatura francesa dos anos 40
«A simplicidade da linguagem esconde uma extraordinária ferocidade intelectual.» — Roger Nimier, ensaio crítico
«Marcel Aymé pertence à linhagem dos grandes contistas europeus.» — Encyclopædia Universalis
«Um clássico do século XX, tão acessível quanto implacável.» — Lire