• por E-Primatur
    Jul 08

    O grande romance «adulto» sobre a infância

    Introdução

    Publicado em 1912, A Guerra dos Botões pertence à literatura francesa da Terceira República, num momento em que o país parecia ainda viver sob a claridade da Belle Époque, mas trazia já no seu interior as fracturas que a Primeira Guerra Mundial viria a revelar de forma brutal. A França de então era a da escola laica, da pequena aldeia, das rivalidades locais, da tensão entre republicanismo e tradição católica, da memória da derrota de 1870 e de uma cultura cívica em que a linguagem da pátria, da disciplina e da honra ocupava lugar central. Louis Pergaud, vindo desse mundo rural e republicano, soube transformar essa realidade numa narrativa simultaneamente cómica, rude e perturbadora.
    A literatura francesa de início do século XX vivia também uma transição. O naturalismo de Zola já não era a força dominante, mas deixara uma herança decisiva: a atenção aos meios sociais, aos hábitos quotidianos, à fala popular, aos corpos, aos instintos e às pressões materiais da vida. Ao mesmo tempo, as correntes simbolistas e pós-simbolistas tinham tornado a escrita mais sensível ao que existe sob a superfície do real. Entre a observação concreta e a percepção de forças obscuras — desejo, violência, medo, pertença, crueldade —, abre-se o espaço em que Pergaud encontra a sua voz. A Guerra dos Botões parece, à primeira vista, uma narrativa de infância; mas é, na verdade, um livro muito mais complexo: uma farsa aldeã, uma sátira da educação masculina, uma parábola sobre a guerra e uma das mais vigorosas representações literárias da infância como território ambíguo.
    Louis Pergaud nasceu em Belmont, no Doubs, a 22 de Janeiro de 1882. Filho de professor, seguiu também a carreira do ensino primário, exercendo como mestre-escola em meios rurais da Franche-Comté. Essa experiência foi decisiva para a sua obra. Pergaud conhecia por dentro a escola republicana, as aldeias, as famílias, os conflitos entre autoridades locais, a fala dos camponeses, os caminhos, os bosques, os animais e as pequenas hierarquias que organizavam a vida provincial. Não escreveu sobre a infância a partir de uma distância idealizada; escreveu a partir de uma memória viva, física, por vezes áspera, marcada pelo contacto directo com crianças, caçadores, lavradores, professores, padres, pais autoritários e comunidades fechadas sobre si mesmas.

    Antes de alcançar a celebridade com A Guerra dos Botões, Pergaud já se afirmara como escritor de grande originalidade. Em 1910, recebeu o Prémio Goncourt por De Goupil à Margot, colectânea de narrativas centradas no mundo animal. Seguiram-se La Revanche du corbeau, em 1911, e, depois de A Guerra dos Botões, Le Roman de Miraut, chien de chasse, em 1913. A sua obra mais característica nasce dessa dupla atenção: aos animais e às crianças, aos instintos e às regras, à vida selvagem e à vida social. Pergaud observa os homens como quem sabe que eles nunca se afastaram inteiramente da animalidade; e observa os animais sem os transformar em simples alegorias sentimentais. Essa lucidez dá ao seu universo uma força incomum.
    A vida do autor foi interrompida cedo. Mobilizado durante a Primeira Guerra Mundial, Pergaud desapareceu em Abril de 1915, na região de Marchéville-en-Woëvre, perto de Verdun. Tinha trinta e três anos. A morte em combate do escritor que, três anos antes, publicara uma das mais célebres sátiras da guerra infantil confere ao romance uma ressonância amarga. A Guerra dos Botões é anterior à catástrofe de 1914-1918, mas, lido depois dela, parece conter uma estranha premonição: as crianças que brincam aos exércitos, aos chefes, aos prisioneiros, aos castigos e às vitórias reproduzem, em miniatura grotesca, a violência ritualizada do mundo adulto.
    O romance acompanha a rivalidade entre dois grupos de rapazes pertencentes às aldeias de Longeverne e Velrans. A guerra que travam não tem uma causa racional: é uma herança, um costume, uma forma de identidade colectiva. Os de Longeverne combatem os de Velrans porque são de Longeverne; os de Velrans respondem porque são de Velrans. Neste mecanismo simples, Pergaud capta algo de essencial: muitas comunidades definem-se menos pelo que são do que pelo inimigo que escolhem ou recebem por tradição. A infância, aqui, não é refúgio contra a história; é já uma iniciação às suas formas mais persistentes.
    A ideia central da “guerra dos botões” é de uma eficácia cómica extraordinária. Os vencidos são despojados de botões, atacadores, suspensórios ou outras peças que mantenham a roupa em ordem. Regressar a casa sem botões é regressar marcado pela derrota e condenado à punição dos adultos. O troféu militar é, portanto, um objecto doméstico; a glória da batalha mede-se por sinais ridículos; a honra do guerreiro depende da roupa que a mãe ou o pai logo descobrirão arruinada. Pergaud transforma assim a pequena materialidade da infância — calções, camisas, bolsos, cordões, botões — num sistema de humilhação e vitória. O burlesco nasce exactamente dessa desproporção entre a solenidade da guerra e a pobreza dos seus despojos.

    Lebrac, chefe dos rapazes de Longeverne, é uma das grandes figuras da literatura francesa sobre a infância. Corajoso, fanfarrão, inventivo, indisciplinado e ferozmente leal ao seu grupo, encarna uma energia que o romance celebra e interroga ao mesmo tempo. À sua volta movem-se Camus, La Crique, Tintin, Gambette, os irmãos Gibus e outros companheiros, cada um com o seu lugar na pequena sociedade guerreira. Pergaud não lhes suaviza a linguagem nem os modos. Estes rapazes insultam, conspiram, vangloriam-se, têm medo, obedecem, traem, castigam e sofrem. São crianças, mas não são inocentes no sentido cómodo que muitas representações adultas da infância preferem conservar.
    É aqui que se compreende a comparação tantas vezes feita entre A Guerra dos Botões e O Senhor das Moscas, de William Golding. A fórmula que apresenta o romance de Pergaud como “o Senhor das Moscas francês” deve ser usada com cautela, pois os dois livros pertencem a épocas, tons e projectos muito diferentes. Pergaud publicou a sua obra em 1912; Golding publicou Lord of the Flies apenas em 1954. Não há em Pergaud uma ilha deserta, nem uma alegoria trágica da civilização em colapso. Há aldeias francesas, recreios, campos, caminhos, famílias e uma comicidade rústica que aproxima o livro da farsa e da sátira. Ainda assim, o paralelo é fecundo: nos dois romances, grupos de rapazes organizam-se sem uma mediação adulta plenamente eficaz, elegem chefes, inventam rituais, criam inimigos, transformam o jogo em violência e revelam que a infância pode reproduzir, com inquietante rapidez, os mecanismos de poder do mundo adulto.
    A diferença está no movimento profundo de cada obra. Golding conduz a narrativa para a parábola sombria; Pergaud conserva a vitalidade cómica, a obscenidade verbal, o prazer do corpo, a lama, a gargalhada, a paródia das instituições e o gosto da aventura. Mas essa comicidade não torna o livro inofensivo. Pelo contrário: é muitas vezes por meio do riso que Pergaud se torna mais mordaz. A guerra dos rapazes é divertida porque é absurda; é perturbadora porque essa absurdidade se parece demasiado com a seriedade dos adultos. Os chefes, as palavras de ordem, os castigos exemplares, a honra ferida, o desprezo pelo adversário e a glória do vencedor pertencem tanto ao recreio como ao campo de batalha.
    Um dos aspectos mais vivos do romance é a linguagem. Pergaud faz entrar no livro a fala rude das aldeias, os insultos, as exclamações, as fórmulas de desafio, a oralidade infantil e camponesa. Esta dimensão coloca problemas delicados a qualquer leitura e a qualquer tradução: a obra não fala de crianças limpas, exemplares, modeladas para lições de moral; fala de crianças corporais, barulhentas, muitas vezes grosseiras, inseparáveis da terra, dos animais, da fome, do medo, da roupa rasgada e da punição. A sua verdade literária depende dessa aspereza. Retirá-la seria transformar o romance noutra coisa: uma recordação sentimental da infância, precisamente o que Pergaud evita.
    Também por isso, A Guerra dos Botões não deve ser lido apenas como livro juvenil. A sua energia narrativa seduz leitores jovens, mas a sua inteligência crítica dirige-se igualmente aos adultos. O romance mostra como a educação transmite códigos de obediência e civilidade, mas também formas de violência, rivalidade e masculinidade agressiva. A escola republicana ensina disciplina e dever; a família castiga; a aldeia conserva rancores; a linguagem patriótica exalta coragem e sacrifício. Os rapazes recebem tudo isso e devolvem-no sob a forma de jogo bélico. Pergaud não acusa as crianças de serem naturalmente más; mostra antes como nelas se concentram, em estado bruto, forças que os adultos organizam e legitimam.
    Dentro da obra do autor, A Guerra dos Botões ocupa um lugar central, mas não isolado. Os relatos de animais de De Goupil à Margot, La Revanche du corbeau ou Le Roman de Miraut partilham com este romance o mesmo interesse pelos territórios, pelos instintos, pela caça, pela perseguição, pela pertença e pela sobrevivência. Em Pergaud, o mundo animal e o mundo infantil comunicam intensamente. As crianças agem muitas vezes como pequenos animais sociais: farejam o perigo, defendem o território, seguem chefes, atacam em bando, exibem troféus, protegem os seus e reconhecem o inimigo pelo cheiro simbólico da aldeia contrária. Esta continuidade entre animalidade e infância não diminui as personagens; dá-lhes densidade, movimento e verdade.

    A influência de Pergaud foi vasta, embora nem sempre declarada. A Guerra dos Botões tornou-se uma das grandes narrativas francesas sobre bandos de rapazes, rivalidades de aldeia e guerras de infância. O seu imaginário permanece reconhecível em muitas histórias posteriores sobre recreios, grupos, chefias infantis, rituais de pertença e crueldade entre pares. Pode ser colocado, por afinidade, ao lado de Os Rapazes da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, ou de O Senhor das Moscas, de Golding, embora cada uma destas obras tenha um tom e uma ambição próprios. O que as aproxima é a convicção de que as sociedades infantis são laboratórios de política: nelas se experimentam autoridade, coragem, medo, traição, solidariedade e violência.
    A sobrevivência pública do romance deve muito ao cinema. Já em 1936, Jacques Daroy realizou La Guerre des gosses, uma primeira adaptação inspirada na obra. Mas foi o filme de Yves Robert, estreado em 1962, que fixou definitivamente A Guerra dos Botões no imaginário francês. Essa versão, distinguida com o Prémio Jean Vigo, tornou-se um clássico popular, transmitido, revisto e citado ao longo de décadas. Mais tarde surgiriam novas adaptações, entre elas a versão irlandesa War of the Buttons, de 1994, e duas produções francesas lançadas em 2011, uma de Yann Samuell e outra de Christophe Barratier. A multiplicação destas versões mostra a plasticidade do romance: a sua estrutura permite leituras nostálgicas, cómicas, políticas ou sombrias, sem perder o núcleo fundamental — a guerra como brincadeira e a brincadeira como revelação da guerra.
    No entanto, o livro de Pergaud é mais rude e mais ambíguo do que muitas das suas adaptações. O cinema, sobretudo quando se dirige a um público familiar, tende a suavizar a linguagem, a acentuar a nostalgia e a converter a infância numa paisagem afectiva. O romance conserva uma força mais áspera. Há nele alegria, sim, mas também obscenidade, brutalidade, medo e uma violência de grupo que não pode ser inteiramente domesticada. Ler hoje A Guerra dos Botões é, portanto, regressar à fonte antes da sua transformação em mito escolar ou cinematográfico.
    A actualidade da obra é evidente. Num tempo em que se discutem a violência entre crianças, a pressão do grupo, a construção da masculinidade, a relação entre educação e agressividade, o lugar da escola e os mecanismos de exclusão, Pergaud continua a oferecer uma leitura penetrante. O romance mostra que a infância não é um estado puro anterior à sociedade; é já uma forma de sociedade. As crianças imitam os adultos, mas também revelam aquilo que os adultos preferem dissimular. A sua guerra é cómica porque é pequena; é séria porque repete, em escala reduzida, as grandes ficções da honra, da pátria, da vingança e da vitória.
    O legado de Louis Pergaud reside nessa capacidade de unir energia narrativa e lucidez crítica. A sua morte precoce impediu uma obra mais vasta, mas não apagou a intensidade do que deixou. A Guerra dos Botões permanece como o seu livro mais célebre porque reúne, numa forma aparentemente simples, muitos dos temas centrais da sua escrita: a animalidade, o território, a infância, a aldeia, a violência, a liberdade, o riso e a fragilidade das convenções sociais. Entre a farsa rural e a parábola amarga, entre Rabelais e Golding, Pergaud encontrou uma maneira única de mostrar que as guerras dos homens começam muito antes dos uniformes, das bandeiras e dos canhões: começam, por vezes, nos caminhos de terra, nos recreios, nos campos e nas pequenas humilhações que ensinam uma criança a pertencer a um grupo.
    Ler A Guerra dos Botões hoje é reencontrar um clássico que resiste à simplificação. Não é apenas um livro sobre rapazes que se combatem por botões; é um romance sobre a formação da violência, sobre a comédia cruel da pertença e sobre a distância, talvez menor do que desejaríamos, entre a brincadeira infantil e a história dos adultos. Essa é a razão da sua permanência: Pergaud diverte-nos, mas não nos tranquiliza.



    [Este livro foi publicado na nossa colecção de livros exclusivos que apenas pode comprar no nosso site ou em eventos com participação directa da editora - como Feiras do Livro.]

  • por E-Primatur
    Abr 15

    Envios para o estrangeiro

    Alerta
    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c3/Postbeambte_met_een_postzak_bij_een_brievenbus_in_Vaticaanstad%2C_Bestanddeelnr_191-1286.jpg

    Prezados Leitores, desde o começo deste ano que os envios de livros para o estrangeiro têm de ser feitos em Correio Azul para poderem ter registo (e respectivo n.º de seguimento).
    Esta situação faz com que o preço dos envios para fora de Portugal quase triplique o anterior valor.
    O envio por outras transportadoras que não os CTT está fora de causa pois, por sua vez, no mínimo duplica o valor triplicado do envio registado por CTT.
    Para terem um exemplo: o envio de um livro de 501g de peso para dentro do espaço comunitário pelos CTT passou a custar um pouco mais de 16 €. Pela transportadora mais barata fica por pouco mais de 25 € sem grandes garantias de bom rastreio - se quisermos uma transportadora que dê essa garantia o preço dispara para 37 €..
    Contudo o problema maior está que o sistema de envio dos CTT, pelo qual se pagou o registo, em mais de 50% dos casos devolve a informação "Objecto não encontrado" que os CTT não conseguem explicar (dos serviços de atendimento ao cliente remetem para a Estação e da Estação para os serviços).
    Estamos a considerar ter de abolir os envios para o estrangeiro pois só nos últimos meses dos envios feitos para os já poucos países para os quais ainda expedimos, desapareceram perto de 35% dos livros enviados cujos custos os CTT não ressarcem, apenas os custos do envio (o que demora mais de meio ano a acontecer).
    Vamos analisar os próximos tempos e os próximos envios antes de tomarmos uma decisão, mas o serviço dos CTT está a piorar de dia para dia.

  • por Os Editores
    Out 27

    Atrasos & problemas

    informação


    Os finais de ano são os períodos mais caóticos para uma editora. Os livros têm de sair antes de o ano terminar e, como todas as editoras têm a mesma urgência, as gráficas estão cheias de trabalho. Qualquer problema leva imediatamente a um atraso.

    Assim, anunciamos aqui os nossos atrasos para 2023:

    ENSAIOS, VOL. II, de Montaigne
    Devido a um atraso na gráfica, o livro só será expedido para os apoiantes e as livrarias no dia 2 ou 3 de Novembro.

    ELOGIO DA LOUCURA, de Erasmo de Roterdão
    Por motivo de doença grave do tradutor, tivemos de procurar outra tradução.
    Não conseguimos ainda dar uma garantia quanto ao prazo exacto, mas teremos um destes dois cenários:
    a) ou o livro será publicado em Dezembro e enviado aos apoiantes, chegando às livrarias em Janeiro/Fevereiro ou
    b) o livro apenas estará pronto para os apoiantes em Janeiro, chegando às livrarias nesse mesmo mês ou no seguinte. Se algum dos apoiantes quiser desistir do apoio, basta que nos contacte através do formulário de contacto do site, indicando o número da sua encomenda.

    HISTÓRIA DA ÍNDIA, de John Keay
    Há um pequeno atraso de semanas devido à revisão desta obra extensíssima. O livro será expedido para os apoiantes e as livrarias em Novembro.

    Os restantes títulos ainda previstos para este ano não têm atrasos a registar e estão dentro dos prazos.
     

  • por Os Editores
    Jun 06

    Porquê publicar um Autor totalmente desconhecido?

    Informação
    [Reproduz-se aqui o texto que serve de prefácio à obra As aventuras de Sindbad, de Gyula Krúdy para apresentar ao leitor português um escritor totalmente desconhecido entre nós]




    Um prefácio sobre como a magia
    d’As Mil e Uma Noites viaja pelo mundo e o vai
    transformando sendo também por ele transformada
    (E depois as coisas ficam negras)

    Quando um editor publica um clássico «estranho», o leitor pode perguntar-se como é que o dito editor deu com aquela obra e por que motivo considera importante publicá-la. Desse processo e dessas razões se falará neste curto prefácio.

    Quando Gabriel García Márquez (1927-2014) estava no seu apogeu literário, foi certa vez questionado por um jornalista cultural que o confrontava com o facto já comummente aceite de que tinha sido ele, García Márquez, a «inventar» o Realismo Mágico, nome que a crítica e a academia davam ao tipo de obras produzidas durante décadas por boa parte dos escritores sul-americanos de língua hispânica. Márquez contradisse o jornalista de forma simples: «quem criou este tipo de literatura foi Juan Rulfo.»

    Juan Rulfo (1917-1986), escritor mexicano com uma obra curta, mas universalmente reconhecida como inovadora e brilhante, um autor que vivia longe dos holofotes e produzia uma literatura escassa que era admirada por leitores selectos em todo o mundo, foi confrontado com a afirmação de García Márquez e admitiu que nada tinha inventado e que se inspirava no estilo e na temática das obras do Prémio Nobel islandês Halldór Laxness.

    Assim, na busca da origem de uma escola literária especificamente sul-americana, o jornalista tinha acabado num Autor da América Central que o remetia para uma ilha a meio caminho entre a América do Norte e a Europa. Em risco de perda de uma literatura de marca--registada sul-americana, a demanda pelas suas origens fraquejou e tanto os jornalistas como a academia preferiram deixar a questão morrer. Contudo...

    Halldór Laxness (1902-1998), em diversas entrevistas e escritos sobre literatura em geral, dizia-se inspirado sobretudo por dois grandes nomes: o checo Bohumil Hrabal (1914-1997) e o húngaro Sándor Márai (1900-1989). Estes dois grandes nomes da literatura universal, naturais de dois dos países que tinham feito parte do Império Austro-húngaro, reconheceram abertamente que a sua grande influência fora Gyula Krúdy.

    Passa muitas vezes ao lado do leitor contemporâneo, para não falar da crítica e da academia, a «geocultura» de um passado relativamente próximo. Com efeito, há pouco mais de 100 anos, o Império Austro-Húngaro era uma das grandes nações europeias. Dentro desse império, literaturas em línguas diversas tinham um espaço comum geralmente oriundo de traduções para a língua institucional – o alemão. A literatura húngara tem, pois, uma longa tradição e um impacto internacional que hoje cai muitas vezes no esquecimento.

    Bastará, como exemplo, referir que no Império Britânico o grande rival de Charles Dickens a dar à estampa best-sellers era o escritor húngaro Mór Jókai (1825-1904), o escritor preferido da Rainha Victória, cujos livros, em tradução para inglês e noutras línguas, se vendiam em quantidades astronómicas para a época. A literatura húngara era uma literatura internacional, culta, cosmopolita e diversa. Se tivermos em conta a dificuldade de tradução do húngaro, que é, juntamente com o finlandês, uma das poucas línguas ocidentais que não têm a base comum indo-europeia que une o hindi e o alemão ou o português nas suas origens remotas, teremos uma noção da influência do Império Austro-Húngaro e do seu poderio cultural, capaz de impor uma língua cujo sistema linguístico é totalmente diverso do de quase todas as línguas do chamado mundo civilizado ocidental.

    Voltemos então a Gyula Krúdy (1878-1933) – ou Krúdy Gyula, uma vez que em húngaro a ordem do apelido e do nome é invertida, tal como acontece em chinês – sem pretensões de fazermos aqui qualquer tipo de biografia. Bastará dizer que desde jovem teve a paixão da escrita e não obedeceu à vontade paterna de se formar em leis, pelo que, quando em 1896 se mudou para Budapeste, foi deserdado. Viveu da escrita, e de que maneira: Krúdy publicou 86 romances, mais de 3000 contos e cerca de 1200 artigos, ensaios, reportagens e crónicas.

    Quem queira saber e investigue nas mais diversas fontes descobrirá que Krúdy foi o escritor húngaro mais famoso do seu tempo, traduzido em dezenas de línguas e que as suas obras, ao longo da vida e posteriormente, foram por diversas vezes adaptadas ao cinema e levadas ao palco. Poderá também o leitor descobrir que o auge da sua carreira foi interrompido pela Primeira Guerra Mundial [Ainda assim, em 1915 publicou o seu segundo volume reunindo as aventuras de Sindbad e, em 1916, em plena guerra, recebeu o Prémio Literário József Ferenc.] e que, depois desta, nos anos 20, foi vítima de ataques vários à sua obra e reputação após a queda da República Soviética da Hungria.

    Descobrirá também como, daí para a frente, apesar de continuar a ser um escritor de grande êxito, as condições económicas do país e a falta de receitas das vendas dos seus livros no estrangeiro acabaram por condená-lo a anos de dificuldades económicas, incertezas, bebida e muitas dívidas. Como em 1930 recebeu o Prémio Baumgarten, o mais importante prémio literário húngaro. Como o seu nome foi, de alguma forma, restabelecido com a publicação do romance de Sándor Márai Sindbad Regressa a Casa, em 1940, uma obra que ficcionava os últimos anos de vida de Krúdy, fazendo referência ao seu herói icónico no título. Como nos anos 70 foi finalmente publicada a recolha das suas obras completas em dezenas de volumes. Como, nos anos 80, o futuro Nobel Imre Kertész (1929-2016) admitiu que a língua húngara na sua forma escrita, como os escritores húngaros a usaram ao longo do século xx, foi a língua «criada» por Krúdy. Muitas outras referências poderiam ser aqui dadas para demonstrar de que forma a obra de Krúdy teve uma influência transversal nos países que estiveram ligados ao antigo Império Austro-Húngaro e aos países vizinhos, tendo o leitor percebido, entretanto, como é que a sua influência chegou às literaturas escandinavas e às literaturas das Américas Central e do Sul.

    Mas se falamos sobre a ascendência da obra de Krúdy não podemos deixar de introduzir o clássico que determinou a criação do seu personagem icónico, cuja presença literária na sua ficção curta se recolhe neste volume pela primeira vez em tradução portuguesa. No século xviii o polímata Antoine Galland viu-se na posse de um antigo manuscrito que recolhia várias histórias de tradição oral do folclore árabe. O título da obra era As Mil e Uma Noites e o manuscrito em si estava incompleto.

    Galland empenhou-se em traduzi-lo adaptando a rudeza e a imperfeição de histórias de registo oral à beleza e sensibilidades do seu tempo e da literatura francesa. Mas uma das coisas que mais perturbavam Galland era o facto de o manuscrito apenas ter perto de 200 noites. Não tinha ainda acesso às recolhas de contos tradicionais árabes que usavam designações como «mil e uma» para significar «muitos», o que não queria dizer que ali se recolhessem exactamente 1001 histórias. Assim, frustrado nas suas intensas buscas por uma cópia completa d’As Mil e Uma Noites, Antoine Galland juntou à sua tradução do manuscrito a de outros que recolhiam outras tantas histórias tradicionais (e quando descobriu que, mesmo assim, ia ser difícil chegar às 1001, deixou, a certa altura, de numerar as noites, pois assim talvez o leitor não o notasse). Ora, um dos manuscritos utilizados reunia as aventuras de Sindbad, o marinheiro, outra famosa recolha de histórias tradicionais árabes em nada relacionada com As Mil e Uma Noites, mas que deste modo passou a integrar a tradução literariamente aprimorada da obra e, como tal, veio a tornar-se parte de um êxito em traduções que entretanto apareceram um pouco por todo o mundo. A tradução para húngaro de As Mil e Uma Noites, de Antoine Galland, foi uma das leituras de infância de Krúdy. E Sindbad o nome escolhido para um herói muito especial.

    Na primeira década do século xx, Krúdy tinha imensas colaborações em jornais e revistas e a sua pena produzia contos e artigos em catadupa (o que, à semelhança do nosso Camilo, que também viveu da escrita, nada punha em causa a sua qualidade literária). A produção de Krúdy ia da história mais tradicional, com princípio meio e fim, a obras literariamente experimentais em que «brincava» com ideias e conceitos. Mas Krúdy procurava conciliar ambas e, nessa altura, surgiu-lhe a ideia de utilizar Sindbad, o marinheiro. Sindbad era uma alcunha que o próprio personagem adoptara ou com a qual algum dos seus confrades o designara. Ao longo de dezenas de contos e dois romances (que não se recolhem nesta colecção), Sindbad pouco mais é do que, precisamente, uma alcunha: não tem nome próprio e possui pouca substância. É um personagem pouco palpável, quase irreal. Na visão que Sindbad tem de si mesmo e naquela que dele fazem quantos com ele conviveram está a essência de Sindbad, o marinheiro de As Mil e Uma Noites. O aventureiro irrequieto e eternamente insatisfeito numa demanda por algo maior. Mas o Sindbad de Krúdy não procura tesouros, procura Amor.

    O Sindbad de Krúdy voga por um tempo contemporâneo ao do seu autor, o final do século xix e o começo do século xx, saltando dos braços de uma apaixonada para o colo da seguinte. Um Don Juan, um novo Casanova. As aventuras de Sindbad, «o marinheiro das mil e uma noites», é, ao mesmo tempo, uma ironia colegial sobre o amante nocturno e uma alusão ao herói inconstante, irrequieto e incapaz de qualquer tipo de compromisso que o alfinete (do verbo alfinetar para quem suspeite) a um lugar específico ou a uma determinada amante. Se as primeiras histórias seguem a estrutura das narrativas de As Mil e Uma Noites, com a sua sucessão, contudo, os contos e o próprio personagem vão-se tornando cada vez mais independentes.

    Assim, as aventuras de Sindbad, o amante de todas as mulheres e o amado de todas elas – seja essa mulher a filha do ferreiro numa pequena aldeia ou a actriz célebre numa metrópole famosa –, dividem-se geralmente em três ciclos. No primeiro, Sindbad visita as mulheres que amou: procura reviver os amores passados que idealiza como tendo sido belos. O presente nada lhe traz de novo: Sindbad já viveu tudo, já tudo experimentou. Nessas histórias passado e presente misturam-se, bem como os seus discursos e planos temporais (da mesma forma como, umas décadas depois, o Prémio Nobel Mario Vargas Llosa – n. 1936 –, herdeiro do Realismo Mágico, viria a integrá-los nas suas obras com louros de pioneiro).

    Na passagem do primeiro ciclo de histórias para o segundo, Sindbad vai percebendo que a idealização do amor raramente corresponde ao que foi a realidade da vivência dessas relações. Não é possível fazer renascer o passado e a memória é sempre mais bela do que a realidade. Nesse segundo ciclo, Sindbad procura então reinventar o presente e torná-lo mais belo: adopta os prazeres da gastronomia e da boa vida. Mas essa mesma vida vai-se tornando mais e mais opressiva. Há toda uma sensação de decadência que se alastra pelas histórias. A liberdade da juventude, mas também os valores sociais, perderam-se. Sindbad torna-se mordaz face a um mundo que se aproxima do fim.

    O terceiro ciclo de histórias de Sindbad, surgido após a Primeira Guerra Mundial, apresenta-nos o herói morto, mas, desta feita, vivo na lembrança das mulheres que amou e que o amaram. Também aqui, então, Sindbad nunca chega a ser um personagem completamente real: é uma lembrança grada, uma memória apaixonada, uma figura por entre as brumas do tempo que se esvanece (do verbo esvanecer para quem suspeite) no passado.

    O jogo do Amor é, ao mesmo tempo, algo leve e pesado, com regras e sem elas. A palavra «jogo» não é inocente: homens e mulheres testavam-se, aprendiam e, derradeiramente, faziam as suas escolhas para a vida ou para um certo período. Claro que essa realidade está mais longe daquela que nós, nos países de moral católica mais rígida, alguma vez vivemos. Esta realidade que dava à própria mulher um papel mais activo nada tem que ver com a nossa tradição do sul da Europa, mas isso não quer dizer que tenha sido ficção. Existiu num espaço real e num tempo concreto bastante mais modernos do que hoje podemos imaginar. E, chegado a este ponto da viagem, o leitor começa a aperceber-se de que aprendeu tanto, tanto. As histórias que leu assemelham-se, mas, na sua parecença, há sempre pequenas variações. Com elas o leitor conseguiu entrever um lampejo da velha Europa, da sua estratificação social, moral e ideológica. Por outro lado, o leitor acompanhou as aventuras finais de um galã europeu nos seus affaires, no cortejo amoroso, esse jogo do enamoramento cujas regras vigoraram na Europa desde o século xii quando Andreas Capellanus as estabeleceu para os longos séculos vindouros. O leitor também tem, agora, uma percepção da forma diversa como os homens vêem e idealizam o amor e a relação amorosa, e, por outro lado, a perspectiva feminina sobre o mesmo. E, por fim, o leitor ganhou também uma sensibilidade para o que se perdeu.

    Krúdy é o pintor de um mundo em decadência no começo do século xx, um mundo que entra em desmoronamento total no intervalo das duas guerras. Krúdy pinta o fim do Amor pelo Amor, o fim da capacidade de sacrifício pelo outro e o fim dessa forma essencial de comportamento humano que pautava uma cultura eminentemente europeia: a cortesia. Não admira que seja muitas vezes associado a Joseph Roth e ao mais tardio Buhomil Hrabal: são escritores de um génio literário incomparável, mas são também, ao mesmo tempo, as vozes literárias mais conscientes do fim de um mundo.

    Algures entre as guerras mundiais perdeu-se esse mundo e perdeu-se esse Amor. Décadas mais tarde, uma realidade muito próxima daquela que Krúdy e escritores seus contemporâneos descrevem era a base de grande parte da ficção (e de uma certa realidade) do tal Realismo Mágico centro e sul-americano, em sociedades que eram tão culturalmente diversas e se situavam, quase literalmente, do outro lado do mundo.

    Quem leia as obras de Krúdy ou Roth e observe o retrato do jogo amoroso repara em algo de semelhante nas literaturas de García Márquez, Llosa ou tantos outros. A mulher com muito mais poder de escolha do que os paradigmas sociais levariam a crer e, muitas vezes, com o domínio do jogo. Mas também a proximidade maior entre os seres humanos, uma noção hoje quase arcaica de camaradagem… E ali, ao lado, em português, Vinicius de Moraes escrevia uma Carta ao Tom, corria o ano de 1974, em que dizia quão importante era «inventar de novo o amor».

    Possamos nós extrapolar que cada fim de um ideal de Amor seja o fim de um mundo, quando a capacidade de sacrifício pelo outro for substituída por egoísmos, quando o Amor deixar de ser o objectivo maior dos seres humanos, esmagado por rituais e trivialidades que o esvaziam de substância, e observando como, no tempo de Krúdy ou de Roth, no final desse trajecto de decadência, esperavam duas guerras mundiais, veremos, talvez com outros olhos, o mundo em que vivemos e uma guerra que começou geograficamente próxima das outras duas e que já não envolve apenas a Ucrânia e a Rússia.


    Hugo Xavier
    Editor




  • por Os Editores
    Jan 03

    Livros do Ano 2022

    Livros do Ano
    Vários dos nossos livros têm sido escolhidos como Livros do Ano 2022. Saiba quais:

    Ainda Ontem, de Samuel Joseph Agnon (prémio Nobel) - E-Primatur
    - Livro do Ano para a Antena 1 (Balanço do ano: Cultura - Livros, escolhas de Teresa Nicolau, Isabel Lucas e Rui Alves de Sousa)

    Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer (Grande Prémio de Tradução Literária para Daniel Jonas) - E-Primatur
    - Livro do Ano para a Livraria De A a Zola
    - Livro do Ano para o Expresso (Pedro Mexia)
    - Livro do Ano para o Público (escolha de Mário Santos)
    - Livro do Ano para a Antena 1 (Balanço do ano: Cultura - Livros, escolhas de Teresa Nicolau, Isabel Lucas e Rui Alves de Sousa)
    - Livro do Ano para o portal Sapo24
    - Livro do Ano para a Rádio Universitária do Minho

    A Diplomacia e a Independência de Portugal, de AA.VV. - BookBuilders
    - Balanço do Ano, por Luís Marques Mendes na SIC Notícias

    Ensaios Vol. I, de Michel de Montaigne - E-Primatur
    - Livro do Ano para o Público (escolha de Hugo Pinto Santos)
    - Livro do Ano para o Público (esolha de António Araújo)
    - Livro do Ano para o Público (esolha de Isabel Lucas)
    - Livro do Ano para o Público (esolha de Mário Santos)
    - Livro do Ano para o Público (esolha de Isabel Coutinho)
    - Livro do Ano para o Público (esolha de Ana Cristina Leonardo)
    - Destaque do Ano do Público (escolha de Helena Vasconcelos)
    - Livro do Ano para a Antena 1 (Balanço do ano: Cultura - Livros, escolhas de Teresa Nicolau, Isabel Lucas e Rui Alves de Sousa)
    - Livro do Ano para a Rádio Universitária do Minho
    - Livro do Ano para o Observador (escolha de Joana Emídio Marques)
    - Livro do Ano para a Livraria De A a Zola
    - Livro do Ano para a equipa do Centro Nacional de Cultura

    Histórias Alegres, de Carlo Collodi - E-Primatur
    - Livro do Ano para a Rádio Universitária do Minho
    - Livro do ano para o blogue «Deus me Livro» (escolha de João Morales)

    Os Loureiros Estão Cortados, de Édouard Dujardin - E-Primatur
    - Livro do Ano para a Rádio Universitária do Minho

    Medos - Antologia de Contos Insólitos Russos, de AA.VV. - Livro B
    - Livro do Ano para a Livraria De A a Zola
    - Livro do Ano para a Rádio Universitária do Minho

    Obra Gráfica - Obras Completas Vol. IV, de Mário-Henrique Leiria - E-Primatur
    - Livro do Ano para a Rádio Universitária do Minho

    Ofuscante, de Mircea Cartarescu (Menção Honrosa do Grande Prémio de Tradução Literária para Tanty Ungureanu) - E-Primatur
    - Livro do ano Livraria Flâneur (que convidou vários escritores para seleccionarem os seus livros do ano, neste caso, escolha de Diogo Vaz Pinto)

    Paraíso Perdido, de John Milton - E-Primatur
    - Livro do Ano para a Livraria De A a Zola

    Os Séculos Otomanos, de Lorde Kinross - BookBuilders
    - Livro do Ano 2022 para o Correio da Manhã (escolha de Francisco José Viegas)

    «Tenho o prazer de informar o Senhor Director...» - Cartas de Portugueses à PIDE - 1958-1968, de Duncan Simpson - BookBuilders
    - Livro do Ano para o Público (podcast Desordem Mundial, apresentadores e convidados fazem o balnaço do Ano em termos de livros sobre política)

    (Em actualização)

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