• por Hugo Xavier
    Mai 12

    Sobre as Liberdades

    Opinião


    Um leitor respondeu ao nosso último boletim com esta mensagem:
     
    «Fiquei entusiasmado com o livro do Aron. Mas depois de ver quem o aconselhava desisti de o vir a comprar.» [o ponto final é nosso]

    Noutra qualquer circunstância, teríamos ignorado como fazemos com os muitos comentários do mesmo teor que se colocam sempre que partilhamos uma recomendação nas redes sociais. Há sempre alguém "que não pode" com a pessoa em causa, há sempre alguém que sente a obrigação  (moral?, social? política?) de o reclamar por todos os meios.

    Mas, neste caso, estamos a falar do Ensaio sobre as Liberdades, de Raymond Aron, que foi publicado pouco após o dia 25 de Abril do corrente ano. Há todo um mundo de significações nesta conjunção e nesta mensagem que nos obrigam a partilhar convosco a nossa resposta (mantendo o anonimato do leitor).

    «Caro Senhor Leitor,
     
    Agradecemos o seu contacto. Não percebemos, contudo, porque no-lo dirige.
     
    Se a ideia é transmitir-nos os seus pensamentos sobre o Senhor Paulo Portas e dizer-nos que se este recomendar Shakespeare, Goethe, Luiz de Camões ou qualquer outro autor, desistirá de comprar essas obras... que podemos nós dizer-lhe?
     
    Se nos está a dizer que deixa de comprar livros por estes serem recomendados por PP, talvez possamos apenas lembrar que o livro em causa está traduzido em mais de 20 países nos quais PP não é comentador no telejornal da noite.
     
    No meio disto tudo, prezado leitor... o que temos nós que ver com quem recomenda os nossos livros? Acreditamos na liberdade de expressão. O leitor poderá recomendar um livro nosso num espaço de comunicação seu e nós divulgaríamos com idêntico destaque.
     
    Acreditamos, por último, que fica mais pobre por não ler Aron. Se não acreditássemos, não teríamos publicado a obra.

    Sabe? É que somos daqueles editores que ainda acham que a sua capacidade de seleccionar um livro é a sua forma de ter opinião. Verificamos contudo que dá mais importância à opinião de PP do que à nossa e, sobretudo, do que ao conteúdo da obra.
     
    Sem outro assunto,»

  • por E-primatur
    Mar 15

    Novo calendário de publicações

    Notícias


    E eis que finalmente uma parte das livrarias reabre.

    Assim, queríamos deixar aqui uma primeira distribuição de publicações até atingirmos - em breve, esperamos - uma certa normalidade.

    Como tal, até começos de Abril, chegarão às livrarias

    1 - Obras que tínhamos publicado mesmo antes do confinamento:
    - O Ilustre Gaudissart, seguido de A Bolsa, de Honoré de Balzac (E-primatur)
    - A caminho de Vladivostoque, seguido de Inimigos, de Álvaro Faria (BookBuilders)
    - Imitações da Vida - Cinema Clássico Americano, com org. de José Bértolo, Fernando Guerreiro e Clara Rowland (BookBuilders)
    - Economia e Sociedade, de Karl Polanyi (BookBuilders)

    2 - Novidades
    - Canto de Tebas, de Miguel Marques (BookBuilders)
    - A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby, de Charles Dickens (E-Primatur)
    - Thomas o obscuro, de Maurice Blanchot (E-Primatur)

    Em Abril:
    - Ensaio sobre as Liberdades, de Raymond Aron (trad. por Ruy Belo - BookBuilders)
    - Vercoquin e o Plâncton, de Boris Vian (trad. Manuel de Freitas - E-Primatur

    Em Maio:
    - Teatro I, de Bernardo Santareno (introd. Ana Paula Medeiros - E-Primatur)


    Em Junho:
    - Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea, de Kenji Miyazawa (trad. de António Barrento - E-Primatur) - segue para os apoiantes a partir de dia 14
    - História da Arte em Portugal: do Marcelismo ao final do Século XX, de Isabel Nogueira (BookBuilders) - segue para os apoiantes a partir de dia 14
    - História dos Povos Árabes, de Albert Hourani (trad. por Miguel Maia - BookBuilders) - segue para os apoiantes a partir de dia 21

    Em Julho:
    - Entre dois Palácios, de Naguib Mahfouz (trad. por Badr Hasaenien - E-Primatur)
    - História do Declínio e Queda do Império Romano, vol. II, de Edward Gibbon (trad. por Maria Emília Ferros de Moura - BookBuilders)

    Em Agosto:
    - Ocorrências na Irrealidade Imediata, de Max Blecher (trad. de Tanty Ungureanu - Livro B)

    Iremos actualizando este artigo assim que formos "arrumando" os títulos no calendário.

  • por E-primatur
    Fev 20

    Uma boa história para um dia de chuva.

    Conto

    O Homem que Fazia Milagres
    H. G. WELLS

    Um pantum1 em prosa


    É duvidoso que o dom fosse inato. Pela minha parte, penso que lhe surgiu de repente. Na verdade, até aos trinta anos foi céptico e não acreditava em poderes milagrosos. Devo mencionar aqui, porque é o local mais adequado, que era um homem baixinho, de olhos castanhos vivos, cabelo ruivo muito eriçado, bigode cujas pontas dobrava para cima, e com sardas. Chamava-se George McWhirter Fotheringay – um nome que de forma alguma fazia prever milagres – e era empregado de escritório na Gomshott. Era muito dado a discussões assertivas. Estava a afirmar a impossibilidade dos milagres quando teve a primeira premonição dos seus extraordinários poderes. Esta discussão tinha lugar no bar O Grande Dragão, e Toddy Beamish encarregava-se de o contradizer com um monótono, mas eficaz, «Isso diz você», que levou o Sr. Fotheringay ao limite da paciência.

    Estavam presentes, além destes dois, um ciclista muito empoeirado, Cox – o dono do bar – e a Menina Maybridge, a respeitável e bastante corpulenta empregada do Dragão. A Menina Maybridge estava de costas para o Sr. Fotheringay, a lavar copos. Os outros observavam-no, mais ou menos entretidos pela ineficácia do método assertivo naquela ocasião. Picado pelas tácticas de Torres Vedras utilizadas pelo Sr. Beamish, o Sr. Fotheringay decidiu fazer um inusitado esforço retórico:

    — Ouça, Sr. Beamish — disse Fotheringay —, entendamos claramente o que é um milagre. É algo que vai contra o curso da natureza feito pelo poder da Vontade, algo que não poderia acontecer sem ser expressamente querido.

    — Isso diz você — disse Beamish, contrariando-o.

    O Sr. Fotheringay apelou ao ciclista, que até então fora um ouvinte mudo, e recebeu o seu assentimento, transmitido através de uma tosse hesitante e um olhar de relance para o Sr. Beamish. O dono do bar não exprimia qualquer opinião e o Sr. Fotheringway, regressando ao Sr. Beamish, recebeu a inesperada concessão de um assentimento qualificado à sua definição de milagre.

    — Por exemplo — disse Fotheringay, muito encorajado —, isto seria um milagre. Seguindo o curso da natureza, aquele candeeiro não poderia arder dessa maneira se estivesse virado ao contrário, não é verdade, Sr. Beamish?

    — Segundo você, não poderia — disse Beamish.

    — E você? — perguntou Fotheringay. — Não estará a querer dizer?… hem?

    — Não — disse Beamish, contrariado. — Não, não poderia.

    — Muito bem — continuou o Sr. Fotheringay. — Pois imaginem que alguém entra aqui, que poderia ser eu, e se instala, podia ser aqui mesmo, e diz ao candeeiro, como eu poderia dizer, concentrando toda a minha vontade: «Vira-te ao contrário sem te partires e continua a arder normalmente e… já está!

    Foi o bastante para fazer com que qualquer pessoa exclamasse «Já está!» O impossível, o incrível estava à vista de todos. O candeeiro estava virado ao contrário e ardia tranquilamente com a chama virada para baixo. O prosaico e vulgar candeeiro do bar O Grande Dragão era tão sólido e tão inquestionável como alguma vez foi algum candeeiro.

    O Sr. Fotheringay estava de indicador esticado e o sobrolho franzido de quem prevê uma quebra catastrófica. O ciclista, que estava sentado ao pé do candeeiro, baixou-se e saltou para o outro lado do bar. Todos saltaram, mais ou menos. A Menina Maybridge virou-se e gritou. Durante quase três segundos o candeeiro permaneceu quieto. O Sr. Fotheringay deixou escapar um débil grito de angústia mental.

    — Não consigo mantê-lo por mais tempo — disse.

    Cambaleou para trás e o candeeiro invertido inflamou-se de repente, caiu no canto do bar, saltou, partiu-se no chão e apagou-se.

    Foi uma sorte que tivesse um recipiente metálico, senão tudo teria ardido. O Sr. Cox foi o primeiro a falar e a sua observação, despojada de excrescências desnecessárias, declarava que Fotheringay era um imbecil. Fotheringay não estava em condições de discutir sequer uma afirmação tão fundamental como aquela! Estava completamente pasmado com o sucedido. A conversa que se seguiu não esclareceu o assunto, no que se referia a Fotheringay. A opinião geral não só acompanhou muito de perto a do Sr. Cox como também o fez com muita veemência. Todos acusaram Fotheringay de ter feito algum truque estúpido e fizeram com que se visse a si mesmo como um destruidor insensato do conforto e da segurança. A sua cabeça era um tornado de perplexidade, até ele tendia a concordar com eles, e apresentou uma oposição deveras ineficaz à proposta de se ir embora.

    Foi para casa, corado e encalorado, com o colarinho do casaco amarrotado, olhos a arder e orelhas vermelhas. No caminho, observou cada um dos dez candeeiros públicos pelos quais passou. E só quando se viu sozinho no seu pequeno quarto em Church Row foi capaz de enfrentar seriamente as recordações do que se passara e perguntar a si próprio que diabo acontecera.

    Tirara o casaco e as botas e estava sentado na cama de mãos nos bolsos a repetir pela décima sétima vez o texto da sua defesa: «Eu não queria que o raio do candeeiro se virasse» quando lhe ocorreu que, no preciso momento em que dissera as palavras-chaves, desejara inadvertidamente aquilo que dizia e que, quando vira o candeeiro no ar, sentira que dependia dele que ele ali se mantivesse, sem saber claramente como deveria fazê-lo. Não tinha uma mente particularmente complexa, caso contrário ter-se-ia detido algum tempo nesse «desejara inadvertidamente» que abrange, de facto, os mais abstrusos problemas das acções voluntárias; sendo assim, a ideia ocorreu-lhe envolta numa bruma bastante aceitável. Daí passou para a comprovação experimental, não seguindo, tenho de admiti-lo, qualquer claro percurso lógico.

    Apontou decididamente para a sua vela e concentrou-se, embora tivesse a sensação de estar a fazer uma coisa estúpida.

    — Ergue-te — disse.

    Um segundo depois, porém, essa sensação desapareceu. A vela ergueu-se, ficou suspensa no ar durante um momento vertiginoso e enquanto o Sr. Fotheringay engolia em seco, caiu com estrondo no toucador, deixando-o às escuras à excepção do brilho decrescente da sua mecha.

    Durante algum tempo, o Sr. Fotheringay ficou sentado às escuras, completamente quieto.

    — Afinal aconteceu mesmo — disse. — Como é que vou explicar isto é que não sei.

    Suspirou profundamente e começou a apalpar os bolsos, à procura de um fósforo. Não encontrando nenhum, levantou-se e tacteou o toucador.

    — Quem me dera ter um fósforo — disse.

    Recorreu ao casaco e também ali não havia nenhum e então ocorreu-lhe que os milagres eram possíveis até com fósforos. Na escuridão, esticou uma mão e olhou-a de sobrolho franzido.

    — Que haja um fósforo nessa mão — disse.

    Sentiu que um objecto leve lhe caía na palma e os seus dedos fecha-ram-se sobre um fósforo.
    Após várias tentativas inúteis de o acender, descobriu que se tratava de um fósforo de segurança. Atirou-o para o chão e então ocorreu-lhe que poderia ter desejado que ele se acendesse. Assim fez, e viu-o a arder no pano que cobria o toucador. Agarrou-o rapidamente e ele apagou-se. Percebeu que as suas possibilidades se alargavam. Tacteou à procura da vela e voltou a colocá-la no candelabro.

    — Agora! Acende-te! — disse o Sr. Fotheringay.

    E imediatamente a vela se acendeu e ele viu um buraquinho negro no pano que cobria o toucador, do qual saía algum fumo. Durante algum tempo, olhou alternadamente para a pequena chama e para o buraqui­nho e depois olhou para cima e viu o seu próprio reflexo no espelho. Com esta ajuda, comunicou consigo mesmo em silêncio durante algum tempo.

    — Que dizer agora sobre milagres? — disse por fim o Sr. Fotheringay, dirigindo-se à sua imagem reflectida no espelho.

    As meditações subsequentes do Sr. Fotheringay foram de uma descrição grave mas confusa. Para já, percebia que, no que lhe diz respeito, se tratava de um caso de pura vontade. Até esse momento, a natureza das suas experiências não o animava a tentar outras, pelo menos enquanto não as reconsiderasse. No entanto, levantou uma folha de papel, tornou cor-de-rosa e depois verde a água num copo e criou um caracol, que aniquilou milagrosamente, e obteve milagrosamente uma nova escova de dentes. A certa altura, já muito tarde, compreendeu que o poder da sua vontade devia ter uma qualidade particularmente rara e poderosa, facto de que já antes tivera alguns indícios, embora sem certeza corroborada. O susto e a perplexidade da sua descoberta inicial eram agora caracterizados pelo orgulho naquela prova de singularidade e por vagos sentimentos de vantagem.
    Apercebeu-se de que o relógio da igreja batia a uma e, como não lhe ocorreu que os seus deveres quotidianos na Gomshott pudessem ser milagrosamente dispensados, retomou a tarefa de se despir para se deitar sem mais delongas. Quando se debatia para tirar a camisa pela cabeça, foi atingido por uma ideia brilhante.

    — Que eu esteja na cama —disse, e assim foi.
    — Despido — precisou, e, achando os lençóis frios, acrescentou apressadamente: — e com a minha camisa de noite. Não, com uma bela camisa de noite de lã macia. Ah! — suspirou com imenso deleite.

    — E agora, que eu esteja a dormir confortavelmente…

    Acordou à hora habitual e durante todo o pequeno-almoço esteve pensativo, perguntando-se se a experiência da noite anterior não poderia ter sido apenas um sonho muito nítido. Por fim, voltou a pensar em experiências cautelosas. Por exemplo, tinha três ovos para o pequeno-almoço: dois tinham sido fornecidos pela senhoria, bons mas de loja, e o terceiro era um delicioso ovo de ganso fresco, posto, cozinhado e servido pela sua extraordinária vontade. Correu para a Gomshott num estado de profunda excitação, embora cautelosamente dissimulada, e só se lembrou da casca do terceiro ovo quando a senhoria o referiu nessa noite. Não conseguiu trabalhar durante todo o dia por causa daquele espantoso novo conhecimento de si mesmo, mas isto não lhe causou qualquer inconveniência, pois compensou-o milagrosamente nos últimos dez minutos.

    À medida que o dia avançava, o seu estado mental passou do espanto à euforia, embora as circunstâncias da sua expulsão do Grande Dragão fossem ainda desagradáveis de recordar e o relato confuso do assunto que chegara aos ouvidos dos colegas tivesse originado alguma troça. Era evidente que devia ter cuidado a levantar objectos frágeis, mas, além disso, enquanto lhe dava voltas na cabeça, o seu dom parecia-lhe cada vez mais promissor. Entre outras coisas, pretendia aumentar a sua riqueza pessoal através de actos de criação pouco ostensivos. Fez surgir dois esplêndidos botões de punho de diamante e voltou a destruí-los precipitadamente quando o jovem Gomshott atravessou a secção de contabilidade, direito à mesa dele. Receava que o jovem Gomshott se perguntasse como os obtivera. Viu com bastante clareza que o dom exigia cautela e vigilância no seu exercício, mas, tanto quanto via, as dificuldades que acompanhavam o seu domínio não seriam superiores às que enfrentara na prática do ciclismo. Foi, talvez, essa analogia, tanto quanto a sensação de que não seria bem-vindo no Grande Dragão, que o levou, depois do jantar, à alameda por trás da fábrica de gás, para ensaiar alguns milagres em privado.

    As suas tentativas padeciam possivelmente de alguma falta de originalidade, pois além do poder da sua vontade, o Sr. Fotheringay não era um homem muito excepcional. Pensou no milagre da vara de Moisés, mas a noite estava escura e pouco propícia para o controlo adequado de grandes serpentes milagrosas. Depois recordou a história de «Tannhäuser» que lera na contracapa de um programa da Filarmónica. Isso pareceu-lhe singularmente apelativo e inofensivo. Cravou o bastão – um bastão muito bonito, de madeira de areca selvagem – na relva que bordejava o caminho e ordenou à madeira seca que florisse. O ar encheu-se imediatamente de um perfume de rosas e, com a ajuda de um fósforo, viu com os seus próprios olhos que aquele belo milagre fora realmente conseguido. O som de passos que se aproximavam pôs termo à sua satisfação. Receando uma descoberta prematura dos seus poderes, dirigiu-se apressadamente ao seu bastão florido:

    — Volta atrás.

    Aquilo que queria dizer era: «Volta a ser como antes», mas, é claro, estava confuso. O bastão retrocedeu a uma velocidade considerável e ouviu-se, irreprimível, um grito irado e um palavrão da pessoa que se aproximava.

    — A quem é que você anda a atirar ramos, seu idiota? — gritou uma voz. — Acertou-me na canela.

    — Lamento, meu velho — disse o Sr. Fotheringay, e nessa altura, apercebendo-se da natureza embaraçosa da explicação, retorceu nervosamente o bigode. Viu Winch, um dos três polícias municipais de Immering, a avançar na sua direcção.

    — O que é que isto significa? — perguntou o polícia. — Olá! É você, não é? O tipo que partiu o candeeiro no Grande Dragão!

    — Não significa nada — respondeu o Sr. Fotheringay. — Absoluta-mente nada.

    — Então porque é que fez isso?

    — Oh, por aborrecimento! — disse o Sr. Fotheringay.

    — Bem pode dizê-lo! Não sabe que essa bengala magoa? Então porque é que faz isso?

    Nesse momento não ocorria ao Sr. Fotheringay qualquer razão para o ter feito. O seu silêncio pareceu irritar o Sr. Winch.

    — Desta vez, jovem, agrediu a polícia. Foi isso que você fez.

    — Ouça, Sr. Winch — disse o Sr. Fotheringay, irritado e confuso, — lamento imenso. A verdade é que…

    — Sim?

    Não conseguia pensar em nada a não ser na verdade.

    — Eu estava a fazer um milagre.

    Tentou dizê-lo num tom casual, mas, por muito que tentasse, não conseguiu.

    — A fazer um …! Vamos, não diga disparates. Com que então a fazer um milagre! Um milagre! Bem, isso tem mesmo muita graça! Não era você o tipo que não acreditava em milagres? Uma coisa é certa: isto é mais um dos seus estúpidos truques de magia … é isso que isto é. Pois bem, vou dizer-lhe…

    Mas o Sr. Fotheringay nunca chegou a ouvir aquilo que o Sr. Winch lhe ia dizer. Apercebeu-se de que se denunciara, de que havia espalhado o seu segredo aos quatro ventos. Um violento acesso de irritação incitou-o a agir. Enfrentou o polícia rápida e furiosamente.

    — Ouça — disse —, já estou farto disto, farto! Eu já lhe mostro um truque de magia estúpido! Vá para o Hades! Vá, agora!

    Ficou sozinho.

    Nessa noite, o Sr. Fotheringay não realizou mais milagres nem se deu ao trabalho de ver o que acontecera ao seu bastão florido. Regressou à cidade, assustado e muito calmo, e foi para o seu quarto.

    — Céus! — disse —, é um dom poderoso, extremamente poderoso. Eu não queria dizer nem metade daquilo que disse. Não mesmo… Pergunto-me como será o Hades!

    Sentou-se na cama e descalçou as botas. Iluminado por uma ideia feliz, transferiu o polícia para São Francisco e, sem mais interferências na causalidade normal, foi sensatamente para a cama. Nessa noite, sonhou com a ira de Winch.

    No dia seguinte, o Sr. Fotheringay ouviu duas notícias interessantes. Alguém plantara uma belíssima roseira trepadora encostada à casa particular do Sr. Gumshott pai, na Lullaborough Road, e o rio ia ser dragado até ao moinho de Rawling à procura do agente Winch.

    Durante todo esse dia, o Sr. Fotheringay esteve abstraído e meditabundo e não realizou nenhum milagre, excepto certas disposições para Winch, e o milagre de completar o trabalho do dia com escrupulosa perfeição apesar do enxame de pensamentos que lhe zumbia na cabeça. A extraordinária abstracção e humildade da sua atitude foram notadas por várias pessoas e constituíram motivo de chacota. Passou a maior parte do tempo a pensar em Winch.

    No domingo à tarde foi à igreja e, coisa bastante estranha, o Sr. Maydig, que tinha um certo interesse pelo ocultismo, pregou sobre «coisas que não são legítimas». O Sr. Fotheringay não era um frequentador habitual da igreja, mas o sistema de cepticismo assertivo ao qual já aludi anteriormente estava agora muito abalado. O tom do sermão lançou uma luz completamente nova sobre aqueles dons recentes e decidiu subitamente consultar o Sr. Maydig imediatamente a seguir à missa. Assim que o decidiu, deu por si a perguntar-se porque não o teria feito antes.

    O Sr. Maydig, um homem magro e excitável, de pulsos e pescoço invulgarmente longos, ficou muito satisfeito com o pedido de uma conversa particular por parte de um jovem cuja negligência em questões religiosas era tema de comentário geral na cidade. Após alguns atrasos indispensáveis, levou-o para o escritório da residência paroquial, que era contígua à igreja, sentou-o confortavelmente e, de pé diante de um lume animado – as suas pernas projectavam um arco de sombra ao estilo de Cecil Rhodes na parede oposta –, pediu ao Sr. Fotheringay que expusesse o seu caso.

    A princípio o Sr. Fotheringay estava um pouco envergonhado e teve alguma dificuldade em abordar a questão.

    — Tenho muitas dúvidas de que o Sr. Maydig acredite em mim… — e coisas assim durante algum tempo. Por fim, arriscou uma pergunta e pediu a opinião do Sr. Maydig sobre milagres.

    O Sr. Maydig ainda estava a dizer:

    — Bom… — num tom extremamente judicioso quando o Sr. Fotheringay o interrompeu de novo. — Suponho que não acreditará que uma pessoa vulgar, como eu, por exemplo, pudesse estar aqui sentada e ter dentro dela alguma espécie de dom que a tornasse capaz de fazer coisas através da sua vontade.

    — É possível — disse o Sr. Maydig. — Algo desse género é possível, talvez.

    — Se eu pudesse dispor livremente de alguma coisa aqui, penso que talvez pudesse explicar com uma espécie de experiência — disse o Sr. Fotheringay. — Ora, repare naquela tabaqueira que está em cima da mesa, por exemplo. O que eu quero saber é se aquilo que vou fazer com ela é ou não um milagre. Dê-me meio minuto, Sr. Maylig, por favor.
    Franziu o sobrolho, apontou para a tabaqueira e disse:

    — Transforma-te numa jarra de violetas.

    A tabaqueira fez o que lhe foi ordenado.

    A mudança sobressaltou violentamente o Sr. Maydig, que ficou a olhar do taumaturgo para a jarra. Não disse nada. Pouco depois, aventurou-se a inclinar-se sobre a mesa e a cheirar as violetas. Tinham sido acabadas de colher e eram muito bonitas. Depois voltou a olhar fixamente para o Sr. Fotheringay.

    — Como é que o senhor fez isso? — perguntou.

    O Sr. Fotheringay puxou o bigode.

    — Limitei-me a dizê-lo e aí tem. O que é isto, é um milagre, é magia negra ou o que é? E o que pensa que se passa comigo? Era isto que eu lhe queria perguntar.

    — É uma ocorrência muitíssimo extraordinária.

    — E há exactamente uma semana eu sabia tanto acerca de poder fazer estas coisas como o senhor. Aconteceu-me de uma forma bastante repentina. Trata-se de qualquer coisa estranha na minha vontade, ima­gino eu, e é tudo quanto consigo dizer.

    Isso é… a única coisa? O senhor seria capaz de fazer outras coisas além desta?

    — Céus, sim! — respondeu o Sr. Fotheringay —, exactamente qual-quer coisa.

    Pensou e, de repente, recordou um truque de prestidigitação que vira.

    — Agora! — apontou. — Transforma-te num aquário. Não, isso não, transforma-te numa taça de vidro cheia de água com peixes dourados a nadar. Assim é melhor! Está a ver, Sr. Maydig?

    — É assombroso. É incrível. O senhor ou é o mais extraordinário… Mas não…

    — Eu podia transformá-la em qualquer coisa — disse o Sr. Fotheringay. — Realmente qualquer coisa. Agora! Transforma-te numa pomba, sim?

    No momento seguinte, uma pomba azul voava pela divisão, fazendo com que o Sr. Maydig se baixasse sempre que se aproximava dele.

    — Pára aí, sim? — disse o Sr. Fotheringay, e a pomba ficou suspensa e imóvel no ar.

    — Eu podia voltar a transformá-la numa jarra de flores — disse, e depois de pôr a pomba na mesa, fez esse milagre.

    — Suponho que em breve quererá o seu cachimbo — disse, e recuperou a tabaqueira.

    O Sr. Maydig seguira todas estas últimas mudanças com uma espécie de silêncio exclamativo. Olhou fixamente para o Sr. Fotheringay e, com muito cuidado, pegou na tabaqueira, examinou-a e voltou a colocá-la na mesa.

    Bom! — foi a única expressão dos seus sentimentos.

    — Agora, depois de tudo isto, é mais fácil explicar ao que vim — disse o Sr. Fotheringay, e procedeu a uma narrativa demorada e arrevesada das suas estranhas experiências, começando pelo caso do candeeiro no Grande Dragão e complicando-a com alusões persistentes a Winch. À medida que avançava, o orgulho transitório que sentira com a consternação do Sr. Maydig foi passando e transformou-se, de novo, no muito vulgar Sr. Fotheringay de todos os dias. O Sr. Maydig escutava-o atentamente, com a tabaqueira na mão, e também a sua postura se foi alterando ao longo da narrativa. Pouco depois, enquanto o Sr. Fotheringay abordava o milagre do terceiro ovo, o sacerdote interrompeu-o com uma agitada mão estendida…

    — É possível — disse. — É crível. É surpreendente, claro, mas concilia várias dificuldades espantosas. O poder de fazer milagres é um dom, uma qualidade especial como a genialidade ou a clarividência… e até hoje surgiu muito raramente e a pessoas excepcionais. Neste caso, porém… Sempre duvidei dos milagres de Maomé e de Buda e da Madame Blavatsky. Mas, é claro! Sim, é simplesmente um dom! Exemplifica tão bem os argumentos desse grande pensador – o tom de voz do Sr. Maydig desceu – sua Senhoria o Duque de Argyl. Aqui descemos a leis mais fundamentais, mais profundas do que as vulgares leis da natureza. Sim, sim. Continue. Continue!

    O Sr. Fotheringay prosseguiu, contando o seu percalço com Winch, e o Sr. Maydig, já não estupefacto ou assustado, começou a agitar os membros e a exprimir o seu espanto.

    — Foi isto que mais me preocupou — continuou o Sr. Fotheringay. — Era sobre isto que mais precisava de conselho. Ele está em São Francisco, é claro, onde quer que isso fique, mas não deixa de ser embaraçoso para ambos, como compreenderá, Sr. Maydig. Não vejo como é que ele poderá compreender o que aconteceu e atrever-me-ia a dizer que estará assustado e tremendamente exasperado, tentando deitar-me a mão. Atrevo-me a dizer que deve estar a tentar vir para cá. Quando penso nisso, de tempos a tempos, mando-o logo de volta com um milagre. E isso é algo que ele nunca poderá entender, claro está, e que o irritará, forçosamente. Além disso, se sempre que tenta voltar comprar um bilhete, isso custar-lhe-á muito dinheiro. Fiz o melhor que podia por ele, mas é claro que é difícil para ele pôr-se no meu lugar. Mais tarde pensei que a roupa dele se poderia ter chamuscado, percebe, se o Hades for mesmo tudo aquilo que se imagina que seja, antes de o transferir. Nesse caso, suponho que teria sido preso em São Francisco. Ordenei logo que tivesse vestido um fato novo, é claro, assim que pensei nisso. Mas como vê, estou metido num sarilho dos diabos…

    O Sr. Maydig tinha uma expressão séria.

    — Compreendo que esteja metido num sarilho. Sim, é uma situação difícil… Como poderá pôr-lhe fim…. — tornou-se vago e inconclusivo.— No entanto, deixemos Winch por instantes e discutamos a questão mais vasta. Não creio que se trate de um caso de magia negra ou algo semelhante. Creio que não há o menor vestígio de criminalidade em tudo isso, Sr. Fotheringay, seja de que espécie for, a menos que o senhor tenha omitido factos materiais. Não, são milagres, puros milagres, se é que o posso dizer, do mais alto nível.

    Começou a dar passos pelo tapete da lareira e a gesticular, enquanto o Sr. Fotheringay estava sentado com o braço em cima da mesa e expressão preocupada.

    — Não sei como vou resolver o assunto do Winch — disse.

    — O dom de fazer milagres é obviamente um dom muito poderoso — disse o Sr. Maydig; — e encontrará uma solução para Winch, não se preocupe. Meu caro, o senhor é um homem muitíssimo impor-tante, um homem com as mais espantosas possibilidades. Como prova, por exemplo! E, de outras formas, as coisas que o senhor pode fazer…

    — Sim, já pensei numa ou duas coisas — disse o Sr. Fotheringay. — Mas… algumas delas deram um bocadinho para o torto. Viu o peixe, ao princípio? Taça errada e peixe errado. E pensei perguntar a alguém.

    — Um comportamento apropriado — disse o Sr. Maydig —, um comportamento muito apropriado, o comportamento completamente apropriado.

    Deteve-se e olhou para o Sr. Fotheringay.

    — É um dom praticamente ilimitado. Testemos os seus poderes, por exemplo. Vejamos se são realmente… Se são realmente tudo aquilo que parecem.

    E foi assim, por incrível que pareça, no escritório da pequena casa ao lado da Igreja da Congregação, na tarde de domingo do dia 10 de Novembro de 1896, que o Sr. Fotheringay, incitado e inspirado pelo Sr. Maydig, começou a fazer milagres. Chama-se especial e definitivamente a atenção do leitor para a data. O leitor contraporá, provavelmente já o terá feito, que certos pontos desta história são improváveis, que se alguma coisa do tipo já descrito tivesse realmente acontecido teria surgido em todos os jornais há um ano. Achará especialmente difíceis de aceitar os detalhes que serão relatados em seguida, pois entre outras coisas envolvem a conclusão de que, ele ou ela, o leitor em causa, terá morrido de uma forma violenta e sem precedentes há mais de um ano. Ora bem, um milagre não é senão algo improvável e, com efeito, o leitor foi morto de uma forma violenta e sem precedentes, há um ano. No posterior decurso da história, isso tornar-se-á perfeitamente claro e credível, como qualquer leitor sensato e razoável admitirá. Mas este não é o lugar para o fim da história, estando esta apenas a pouco mais de metade. Ao princípio, os milagres realizados pelo Sr. Fotheringay eram pequenos e tímidos, minudências com copos e acessórios de salas, tão fracos como os milagres dos teosofistas e, apesar de tão fracos, foram recebidos com assombro pelo seu colaborador. Ele teria preferido resolver imediatamente o assunto de Winch, mas o Sr. Maydig não o deixou. Não obstante, depois de terem feito uma dúzia destas trivialidades domésticas, a sensação de poder deles aumentou, a imaginação deles começou a dar sinais de estímulo e a ambição deles cresceu. A primeira empresa deles de maiores dimensões deveu-se à fome e à negligência da Sr.ª Minchin, a governanta do Sr. Maydig. A refeição à qual o sacerdote conduziu o Sr. Fotheringay estava certamente mal apresentada e era pouco convi­dativa como refrigério para dois laboriosos fazedores de milagres; ainda assim, sentaram-se e o Sr. Maydig lamentava, com mais pena do que ira, as limitações da sua governanta quando ocorreu ao Sr. Fotheringay que tinha uma oportunidade diante de si.

    — Não lhe parece, Sr. Maydig — disse —, se não for um abuso, que eu

    — Meu caro Sr. Fotheringay! Claro! Não, não pensei.

    O Sr. Fotheringay fez um gesto ondulante com a mão.

    — O que tomamos? — perguntou, com uma generosa e inclusiva liberalidade e, a pedido do Sr. Maydig, reviu muito profundamente o jantar.

    — Quanto a mim — disse, espreitando a escolha do Sr. Maydig —, gosto sempre especialmente de uma caneca de cerveja e de uma bela tosta de queijo galesa e é isso que vou pedir. Não sou muito dado ao Borgonha — e às suas ordens surgiram imediatamente a cerveja e a tosta de queijo galesa. Estiveram muito tempo sentados a jantar, falando de igual para igual, quando o Sr. Fotheringay descobriu, com uma sensação de surpresa e gratificação, todos os milagres que em breve iriam fazer.

    — E já agora, Sr. Maydig — disse o Sr. Fotheringay —, eu talvez pudesse ajudá-lo… no plano doméstico.

    — Não estou a compreender muito bem — disse o Sr. Maydig, enchendo um copo de um velho borgonha milagroso.

    O Sr. Fotheringay serviu-se de uma segunda tosta de queijo galesa que ainda restava e deu uma bela dentada.

    — Estava a pensar — disse — que eu talvez pudesse (nham, nham) fazer (nham, nham) um milagre com a Sr.ª Minchin (nham, nham), torná-la uma mulher melhor.

    O Sr. Maydig pousou o copo, parecendo hesitante.

    — Ela… ela opõe-se firmemente a qualquer interferência, sabe, Sr. Fotheringay. E de facto já passa bastante das onze e ela estará provavelmente deitada e a dormir. O Sr. acha que, de uma forma geral…

    O Sr. Fotheringay considerou estas objecções.

    — Não vejo razão para não o fazer enquanto ela está a dormir.

    Durante algum tempo, o Sr. Maydig opôs-se à ideia e depois cedeu. O Sr. Fotheringay emitiu as suas ordens e, um pouco menos descontraídos, talvez, os dois cavalheiros continuaram o seu repasto. O Sr. Maydig discorria sobre as mudanças que poderia esperar no dia seguinte na sua governanta com um optimismo que até aos sentidos prandiais do Sr. Fotheringay pareceu um pouco forçado e agitado, quando, vinda de cima, começou a chegar uma série de ruídos confusos. Trocaram olhares interrogativos e o Sr. Maydig saiu apressadamente da sala. O Sr. Fotheringay ouviu-o chamar a governanta e depois os seus passos a subir suavemente até ela.

    Cerca de um minuto depois, o sacerdote regressou, de passo leve e rosto radioso.

    — Maravilhoso! — disse — e comovente! Muito comovente!

    Começou a passear sobre o tapete da lareira.

    — Um arrependimento, o mais comovente arrependimento, pela frincha da porta. Pobre mulher! Uma mudança verdadeiramente mara­vilhosa! Ela deve ter-se levantado. Deve ter-se levantado imediatamente. Acordou do seu sono e partiu uma garrafa privada de aguardente que tinha no baú. E também o confessou!… Mas isto dá-nos, abre-nos um panorama de possibilidades muitíssimo surpreendente. Se conseguimos operar esta mudança nela

    — Ao que parece, a coisa é ilimitada — disse o Sr. Fotheringay. — E quanto ao Sr. Winch…

    — Completamente ilimitada.

    E do tapete da chaminé o Sr. Maydig, pondo de lado a dificuldade de Winch, desdobrou uma série de propostas maravilhosas, propostas que ia inventando enquanto caminhava.

    Ora bem, quais foram essas propostas não diz respeito ao essencial desta história. Basta dizer que foram concebidas num espírito de infinita benevolência, o género de benevolência que se costumava chamar em tempos pós-prandial. Bastará também dizer que o problema de Winch continuou por resolver. Nem sequer é necessário descrever até que ponto essa série se chegou a concretizar. Houve mudanças surpreendentes. A altas horas da noite, os senhores Maydig e Fotheringay encontravam-se a percorrer a toda a velocidade a fria praça do mercado sob a quietude da lua, numa espécie de êxtase taumatúrgico, o Sr. Maydig todo ele agitação e gesto, o Sr. Fotheringay conciso e hirsuto e já nada envergo­nhado da sua grandeza. Tinham reabilitado todos os bêbedos do bairro do Parlamento, transformado toda a cerveja e todo o álcool em água (o Sr. Maydig impusera-se ao Sr. Fotheringay neste ponto), tinham ainda melhorado bastante as comunicações ferroviárias locais, drenado o pântano de Flinder, melhorado o solo da colina de One Tree e curado a verruga do vigário. E ainda iam ver o que poderiam fazer quanto ao molhe danificado da Ponte Sul.

    — A cidade — ofegou o Sr. Maydig — não será a mesma amanhã. Que surpreendidos e agradecidos irão todos ficar!

    E nesse preciso momento, o relógio da igreja bateu as três.

    — Ouça — disse o Sr. Fotheringay —, são três da manhã. Tenho de ir para casa. Às oito tenho de estar no trabalho. Além disso, a Sr.ª Wimms…

    — Estamos apenas a começar — disse o Sr. Maydig, a transbordar da doçura do poder ilimitado. — Estamos apenas a começar. Pense em todo o bem que estamos a fazer. Quando as pessoas acordarem…

    — Mas… — objectou o Sr. Fotheringay.

    O Sr. Maydig agarrou-lhe subitamente o braço. Tinha os olhos brilhantes e muito abertos.

    — Meu caro amigo — disse —, não há pressa. Veja — apontou para a lua no zénite —, Josué!

    — Josué? — disse o Sr. Fotheringay.

    — Josué — disse o Sr. Maydig. — Porque não? Pare-a.

    O Sr. Fotheringay olhou para a lua.

    — Está um pouco alta — disse depois de uma pausa.

    — Porque não? — repetiu o Sr. Maydig. — Claro que não irá parar. Você faz parar a rotação da Terra, está a ver? O tempo pára. Não é como se estivéssemos a fazer mal a alguém.

    — Hum! — disse o Sr. Fotheringay. — Bom — suspirou. — Vou tentar. Agora…

    Abotoou o casaco e dirigiu-se para o globo habitável, com toda a segurança que conseguia sentir.

    — Pára de rodar, sim? — disse o Sr. Fotheringay.

    Sem que o pudesse impedir, voava pelo ar de cabeça para baixo a uma velocidade de dúzias de milhas por minuto. Apesar dos inúmeros círculos que descrevia por segundo, pensou: porque pensar é maravilhoso – por vezes tão lento como o breu em movimento, por vezes tão instantâneo como a luz. Num segundo, pensou e quis:

    — Que eu desça são e salvo. Aconteça o que acontecer, que eu desça são e salvo.

    Quis mesmo a tempo porque a sua roupa, aquecida pelo voo rápido pelo ar, estava a começar a chamuscar-se. Desceu com uma colisão enérgica, embora de modo algum perigosa, com aquilo que parecia ser um monte de terra recentemente revirada. Uma grande massa de metal e alvenaria, extraordinariamente parecida com a torre do relógio a meio da praça do mercado, bateu no chão perto dele, fez ricochete sobre ele e voou desfeita em pedra, tijolo e alvenaria, como uma bomba que rebenta. Uma vaca que voava pelos ares bateu num dos blocos maiores e esmagou-se como um ovo. Ouviu-se um estrondo que fez com que os mais violentos estrondos da sua vida passada parecessem pó a cair, ao qual se seguiu uma série descendente de estrondos menores. Um vento fortíssimo rugiu pela terra e pelo céu, pelo que quase não conseguiu erguer a cabeça para ver. Durante algum tempo, esteve demasiado atónito e sem fôlego para ver sequer onde estava ou o que acontecera. E o seu primeiro movimento foi apalpar a cabeça e assegurar-se de que o seu cabelo esvoaçante ainda lhe pertencia.

    — Céus! — ofegou o Sr. Fotheringay, quase incapaz de falar por causa do vendaval. — Escapei por um triz! O que é que correu mal? Tempestades e trovões. E há apenas um minuto estava uma bela noite. Foi o Maydig quem me meteu nesta embrulhada. Que vento! Se eu continuar a fazer estes disparates vou ter de certeza um acidente ful-minante…

    — Onde está o Maydig? Mas em que maldita confusão isto tudo está!

    Olhou à sua volta até onde o bater do casaco lhe permitia. O aspecto das coisas era, de facto, extremamente estranho.

    — Seja como for, o céu está bem — disse o Sr. Fotheringay. — E parece ser praticamente a única coisa que está bem. E mesmo assim parece que está a chegar um vendaval terrível. Mas a lua está lá em cima. Exactamente igual ao que estava ainda há pouco. Brilhante como o meio-dia. Quanto ao resto… Onde está a aldeia? Onde está… onde está tudo? E que diabo terá feito soprar este vento? Eu não ordenei nenhum vento.

    O Sr. Fotheringay lutou em vão para se pôr de pé e, após um fracasso, permaneceu com os quatro membros no chão, tentando não voar. Olhou para sotavento, observando o mundo iluminado pelo luar, com as pontas do casaco a ondular por cima da sua cabeça.

    — Há qualquer coisa muito errada — disse o Sr. Fotheringay. — Mas o que quer que seja… só Deus sabe.

    Ao longe nada se via no brilho branco através da bruma de pó que o vendaval uivante empurrava para além de massas caídas de terra e incipientes montes de ruínas, nenhuma árvore, nenhuma casa, nenhuma forma familiar, apenas um deserto de desordem desaparecendo por fim na escuridão entre colunas e serpentinas, os raios e os trovões de uma tempestade que se levantava rapidamente. Perto dele, no brilho nítido, estava algo que em tempos podia ter sido um olmo, uma massa esmagada de lascas, despedaçadas dos ramos à raiz e, mais adiante, uma massa retorcida de vigas de ferro – obviamente o viaduto – emergia da confusão amontoada.

    Repare-se, quando o Sr. Fotheringay deteve a rotação do sólido globo, não fez qualquer estipulação relativamente às trivialidades que se movem na sua superfície. E a Terra gira tão depressa que a sua superfície no equador viaja a bastante mais do que mil milhas por hora e nestas latitudes a mais de metade dessa velocidade. Por essa razão, a aldeia, o Sr. Maydig, o Sr. Fotheringay, e todos e tudo haviam sido violentamente projectados para a frente a cerca de nove milhas por segundo – isto é, muito mais violentamente do que se tivessem sido disparados de um canhão. E todos os seres humanos, todas as criaturas vivas, todas as casas e todas as árvores – todo o mundo tal como o que conhecemos – haviam sido projectados dessa forma e esmagados e completamente destruídos. Era tudo.

    É claro que o Sr. Fotheringay não compreendeu integralmente estas coisas. No entanto, apercebeu-se de que o seu milagre fracassara e foi invadido por uma enorme aversão aos milagres. Nesse momento estava às escuras porque as nuvens se tinham juntado e ocultado o seu vislumbre transitório da lua, e o ar estava cheio de flocos de granizo irregulares, torturados e lutadores. Um grande rugido de vento e água enchiam o céu e a Terra e, espreitando através do pó e da chuva com neve, com a mão sobre os olhos, viu, à luz dos raios, uma vasta muralha de água que avançava na sua direcção.

    — Maydig! — gritou a débil voz do Sr. Fotheringay entre o estrépito dos elementos. — Aqui! Maydig!

    — Pára! — gritou o Sr. Fotheringay à água que avançava. — Oh, pelo amor de Deus, pára!

    — Só um momento — disse o Sr. Fotheringay aos raios e trovões. — Parem um momento enquanto eu ponho os meus pensamentos em ordem… E agora o que é que eu faço? — perguntou-se. — O que é que eu faço? Céus! Quem me dera que o Maydig estivesse aqui.

    — Já sei — disse o Sr. Fotheringay. — E pelo amor de Deus, que desta vez corra bem.

    — Ah! — exclamou. — Que nada daquilo que vou ordenar aconteça enquanto eu não disser Já!… Céus! Quem me dera ter pensado nisto antes.

    Ergueu a sua vozinha contra o vendaval, gritando cada vez mais alto, na esperança vã de se ouvir falar.

    — Ora bem… aqui vai! Lembra-te do que acabei de dizer. Em primeiro lugar, quando tiver acontecido tudo aquilo que eu tenho para dizer, que eu perca este meu poder milagroso, que a minha vontade seja igual à de todas as outras pessoas e que todos estes milagres perigosos acabem. Não me agradam. Preferia não os ter feito. Nunca. Esta é a primeira coisa. E a segunda é que eu esteja de volta ao momento anterior ao início dos milagres; que tudo seja exactamente igual ao que era antes daquele bendito candeeiro se virar ao contrário. Dá muito trabalho, mas é o último. Percebeste? Nem mais um milagre, tudo como estava e eu de volta ao Grande Dragão mesmo antes de beber o meu meio copo. É isto! Sim.

    Enterrou os dedos no monte, fechou os olhos e disse: — Já!

    Tudo ficou completamente imóvel. Apercebeu-se de que estava de pé.

    — Isso diz você — disse uma voz.

    Abriu os olhos. Estava no bar do Grande Dragão a discutir sobre milagres com Toddy Beamish. Teve uma vaga sensação de algo importante e esquecido, que passou instantaneamente. Repare-se que, exceptuando a perda dos seus poderes milagrosos, tudo estava como sempre estivera, pelo que a sua inteligência e memória eram agora exactamente o que eram quando esta história começou. Assim, ele não sabia absolutamente nada de tudo o que aqui foi contado e ainda hoje não sabe nada de tudo o que aqui foi contado. E, entre outras coisas, é claro, ainda não acredita em milagres.

    — Estou-lhe a dizer que os milagres, falando com rigor, não podem acontecer — dizia —, diga o senhor o que quiser. E estou preparado para o provar aconteça o que acontecer.

    — Isso é o que você pensa — disse Toddy Beamish, acrescentando. — Prove-o, se for capaz.

    — Ouça, Sr. Beamish — disse Fotheringay. — Entendamos claramente o que é um milagre. É algo contrário ao curso da natureza feito pelo poder da Vontade…
     
    1 Forma poética derivada do pantun, uma forma de verso malaia, em estrofes de quatro versos. (N. R.)


    Encontra mais histórias como esta em:



    Também encontra o filme homónimo de 1936 no Youtube (The man who could work miracles)

  • por BookBuilders
    Jan 26

    Última oportunidade: Polanyi

    Última oportunidade
    ÚLTIMA OPORTUNIDADE: para apoiar em crowdfunding por 15,53€ e receber depois em sua casa sem custos adicionais o livro que posteriormente estará nas livrarias por 22,00€. (Só até ao final do dia 31 de Janeiro.)

    «Karl Polanyi é considerado um dos cientistas sociais mais influentes dos nossos tempos. O seu livro seminal, A Grande Transformação, integra o rol dos clássicos do século xx. Polanyi foi inicialmente reconhecido como antropólogo económico e historiador. Mais tarde, a sua obra passou a integrar o discurso de disciplinas como a sociologia, o direito e a ciência política. Por fim, e em especial desde o começo da crise económica e financeira em 2007-2008, tornou-se um ponto de referência indispensável de uma discussão pública mais ampla. Em todo o mundo, intelectuais proeminentes referem-no como fonte de inspiração. Com base nos seus textos, economistas, cientistas sociais e activistas passaram a contestar as tendências actuais da globalização, privatização e desregulação de cariz neoliberal. O relatório Trade and Development Report de 2016, da Conferência das Nações Unidas com o mesmo nome, descreve a situação actual como "um 'período Polanyi', em que o quadro regulatório e normativo de que dependem os mercados saudáveis, já de si distorcido, está a começar a ceder (…) A confiança na liderança política está em mínimos históricos, precisamente quando nunca foi tão necessária uma acção política decisiva!.» (Da Introdução de Claus Thomasberger e Michele Cangiani)

    Esta compilação reúne alguns dos ensaios e artigos mais importantes que o Autor escreveu e que ainda não haviam sido coligidos em livro, tendo alguns deles sido publicados em revistas de língua alemã. Abordam temas tão diversos quanto a ascensão e a difusão do fascismo (bem como o estudo e a análise das suas raízes histórico-filosóficas), o ambiente político em transformação na Áustria, o estudo aprofundado sobre as razões do colapso económico, o conflito entre sociedade e sistema de mercado ou a questão da liberdade. No fundo, reflectem um espírito ecléctico, com interesses variados e um olhar crítico ímpar.

    Uma obra importante para se perceber a riqueza do pensamento de um dos intelectuais mais importantes do século xx.

    «Karl Polanyi é um gigante entre os actuais cientistas sociais. Vale sempre a pena relê-lo. Obriga-nos a pensar.»
    Imannuel Wallerstein, Universidade de Yale

    Se considera este projecto relevante, ajude-nos a torná-lo numa realidade partilhando entre os seua amigos leitores e nas suas redes sociais.

     

  • por Letras Errantes Lda.
    Jul 08

    «Ultima ratio regum»

    Polémica
    Bethel Music - Without Words Album Art - Nathan Grubbs

    «Último argumento dos reis». Fora isto que Luís XIV mandara gravar nos seus canhões. Finda a diplomacia e a argumentação, restava a força.

    Na sequência da entrevista de Hugo Xavier ao jornal «i», no texto com que nos brinda na página de facebook da Relógio d'Água (RdA), Francisco Vale (FV), por seu lado, sem argumentos, recorre à insinuação torpe e ao insulto velado para atacar a competência e honorabilidade de Hugo Xavier, um dos editores e co-fundadores da E-primatur, não sem antes denegrir e apoucar o trabalho feito pelas nossas chancelas. E isso merece resposta: primeiro, a título institucional; segundo, para defesa da honra e do bom nome de Hugo Xavier.

    Na verdade, o texto diz mais do próprio FV do que daqueles que visa atingir. Não se coíbe de enlamear traduções que repescámos e de caminho insulta os profissionais que nelas trabalharam a rever e a cotejar a tradução. Para FV, «algumas traduções da E-Primatur são francamente más, como é o caso de “Bleak House” ou de “The Old Curiosity Shop”, em que recorreu a uma tradução do final dos anos 40 de Ersílio Cardoso, que tem vários problemas e nem sequer parece ter sido revista.» Vejamos: FV atira a pedra e esconde a mão, pois não cita um só exemplo de «má tradução» ou problemas; as traduções citadas são boas traduções; o facto de terem sido feitas nos anos 40 em nada as diminui; pelo contrário, deixa-as mais próximas de uma linguagem do século xix. De igual modo, a insinuação de «que nem parece ter sido revista» é desmentida pela realidade: basta consultar a ficha técnica para lá ler o nome de Helder Guégués, das pessoas que mais têm feito pela defesa da língua portuguesa e um dos melhores revisores que há em Portugal. Aliás, com excepção de Tempos Difíceis, todas as traduções que publicámos de Dickens até à data fora cotejadas com o original e revistas por ele. O mesmo Helder Guégués a que FV já recorreu bastas vezes para fazer o mesmíssimo trabalho.

    Ainda sobre a publicação de títulos de Dickens: ninguém retira o mérito a FV de o ter publicado (e continuar a publicar), mas isso faz dele apenas um editor que publicou Dickens, não o torna dono do autor. A nossa tradução de Hard Times saiu poucos meses antes (Março) da que Daniel Jonas fez para a RdA (Outubro). Nada a dizer, uma coincidência (sem ironia). Mas desde então, durante três anos a RdA quase só publicou – um ano depois ou mais – títulos que já tínhamos publicado: Great Expectations e Oliver Twist; e Dickens não é conhecido por ter uma obra pequena. Desde que surgiu, a E-Primatur tem publicado um título de Dickens por ano (dá saúde e faz crescer). Serão certamente coincidências e vicissitudes de se publicar autores em domínio público. FV esqueceu-se também de referir que a RdA entendeu publicar, em Novembro de 2017, as duas pequenas conferências de Max Weber, com o título A Ciência e a Política Como Ofício e Vocação; oito meses antes publicáramos nós os mesmos textos: A Política como Vocação seguido de A Ciência como Vocação. Honra seja feita à RdA, que já havia publicado outros títulos do autor, entre eles o célebre A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (já publicado antes pela Presença). E agora o «affaire» Sete Pilares: a nossa edição estava anunciada desde Novembro do ano passado.

    FV tenta também apoucar o nosso modelo de negócio, e com isso insulta o leitor português, ao passar-lhe um atestado de menoridade, com a sua afirmação jocosa de que «a E-Primatur e a sua chancela Bookbuilders editam obras a pedido de leitores num processo de crowdfunding, em versão um pouco mais selectiva e literária do que a Chiado Books». FV faz-se de parvo para enganar o leitor: mais uma vez, basta ir ao nosso site para lá ler: «Na página "Projectos" estão indicados os livros que são apresentados a votação. Esses livros resultam de propostas dos Editores, dos padrinhos do projecto ou dos Leitores.» Temos muito orgulho no nosso trabalho e agradecemos o contributo dos nossos leitores na construção da editora, contributo esse que também passa por sugestões de publicação. FV, que recebe diversas sugestões através do Facebook e do blogue da RdA, e certamente dos seus colaboradores, não precisa dessas sugestões: já lhe tinham ocorrido todas. Quanto à afirmação de que publicamos sem riscos, a falsa sonsice continua, pois FV sabe muito bem quanto custa fazer um livro.

    Enfim, a coisa já vai longa. Para concluir esta primeira parte: FV construiu um catálogo ímpar na edição portuguesa. Mas nós não confundimos a obra de arte com o carácter do artista. E dele não recebemos lições, muito menos de ética. Já não é a primeira vez que FV entende opinar, de forma pouco elegante, sobre o catálogo e as opções de outros editores, e neste caso recorrendo à mentira. Por isso, a sua ida, na Feira do Livro de Lisboa do ano passado, ao nosso pavilhão para pedir apenas um catálogo (havia lá boas promoções) só se explica por um prazer mórbido de ver o lixo editorial que vai surgindo por cá.

    Os Editores
    Pedro Bernardo
    Hugo Xavier



    (Parte II)

    Ao contrário de FV, não sou de me envolver em polémicas. Tenho pouca paciência para retóricas e, acima de tudo, pouco tempo.

    No caso em causa, FV insultou-me como editor e profissional da edição, insultou os seus leitores com retórica barata e mentiras descaradas e acabou a falar mais de si do que outra coisa.

    Muito pouco do que FV escreve merece resposta (sobretudo se os seus leitores lerem a minha entrevista), mas algumas respostas são obrigatórias:

    - Numa frase baralhada FV diz que se confunde ética com respeito. Sobre isso refiro apenas que, no novo site do Público, "Leituras", um projecto da Isabel Coutinho, há uma nova rúbrica intitulada 'Saídas' na qual se destacam os livros públicados semana a semana com informação confirmada pelas editoras. Na semana em que chegou às livrarias a nossa edição de «Os Sete Pilares da Sabedoria», FV comunica a saída da sua edição, sabendo perfeitamente que a mesma (que ainda não está no mercado) demoraria algumas semanas a ser publicada. Aqui se esclarece qual a noção de ética de FV e o seu respeito quer por jornalistas, quer por leitores, quer por livreiros.

    - FV critica a qualidade das edições da E-Primatur e da BookBuilders insultando, assim, os mesmos críticos e jornalistas que têm votado, desde que estas editoras apareceram em finais de 2015, nos seus livros e nos nossos para Livros do Ano nos principais órgãos de imprensa e crítica especializada.

    - FV ataca a qualidade das nossas traduções e levanta suspeitas sobre a qualidade da tradução de «Os Sete Pilares da Sabedoria». Mas fica-se por aí. Numa crítica inócua e vazia sem um único exemplo. FV esquece-se de que os leitores portugueses não são burros e percebem nessas críticas a mesma leviandade suína dos insultos parlamentares.

    - FV decide, em resposta a um ponto que levanto na minha entrevista, revelar a sua enorme cultura editorial. Para fechar esse ponto com chave de ouro, FV clama que as editoras do pré 25 de Abril "não deixaram um grande legado à geração de editoras que se lhes seguiu". Não sei quem tenta FV enganar, mas se algum leitor tiver dúvida, consulte o catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal e verifique a que editoras foi FV, na primeira década da sua editora, buscar o grosso do seu catálogo. Não há mal nenhum nisso desde que se tenham pago traduções e direitos, só que FV nega a base da sua própria editora.

    - FV parece assumir que as minhas referências a um certo tipo de editores surgidos após 1974 e que pautavam a sua actuação por um desprezo pelo cumprimento de compromissos e legislação de Direitos de Autor lhe são dirigidas. Lá saberá se a casaca lhe serve. Da RdA sei apenas que vários grandes nomes da literatura mundial foram publicados alguns anos antes de caírem no domínio público sem que as fichas técnicas das obras apresentassem as frases contratualmente obrigatórias de copyright. Um esquecimento sistemático...

    - FV diz que digo "o pior possível" de editoras onde trabalhei. Não, não digo. Da Vega, onde comecei, digo mal do editor Assírio Bacelar pela sua continuada política de incumprimento de compromissos junto de tradutores e de autores. Já da editora em si e do talento desse mesmo editor falam um catálogo de qualidade extrema, que, não fosse uma péssima comunicação, mereceria ombrear com a RdA em muitas das suas linhas editoriais. Da Babel falei apenas dos seus administradores executivos. FV quer fazer de mim um detrator ou algo pior. Ridículo, basta ler.

    - Os insultos que FV me dirigiu permitem-me também que lhe diga que, se quer arvorar a bandeira das traduções a partir das línguas originais, não o pode fazer contra mim. A Cavalo de Ferro (CdF), da qual fui fundador e da qual fui co-editor entre 2002 e 2004 e editor principal de 2004 a 2008, foi a primeira editora portuguesa a trabalhar sistematicamente as traduções de línguas originais numa escala à qual a RdA nunca chegou: russo, chinês, japonês, checo, eslovaco, polaco, sueco, búlgaro, islandês, servo-croata, norueguês, árabe, romeno, alemão, italiano e muitas mais. Alguns dos mais prestigiados tradutores literários que colaboram com a RdA hoje tiveram a sua primeira grande projecção na CdF. Na E-primatur e noutras chancelas saíram também já traduções do persa, sueco, alemão, italiano, árabe e russo.

    Não sei onde FV viu na entrevista que me considero inigualável, não é sequer um bom insulto – FV já escreveu melhores insultos. Enfim, numa perspectiva hermenêutica todo o texto de FV é de uma pobreza franciscana.

    Hugo Xavier

  • por E-primatur
    Mai 07

    Novo Calendário de Edição

    Covid-19

    Ao longo da próxima semana (semana de 10 a 17 de Maio) iremos gradualmente actualizar o nosso calendário editorial bem como os prazos dos projectos editoriais em crowdfunding.

  • por E-primatur
    Abr 30

    Apoie uma livraria

    Campanhas
    Copiando, assumidamente, o exemplo da Antígona, da Orfeu Negro e da Planeta Tangerina (pois não vem mal ao mundo se imitarmos os bons exemplos), as nossas três chancelas (E-Primatur, Bookbuilders e Livro B) associam-se à ideia de apoiar as chamadas pequenas livrarias, grandes no trabalho que desenvolvem. Por vezes, é preciso passar das palavras aos actos, e por isso decidimos iniciar uma campanha nos mesmos moldes: durante 10 dias, 25% de qualquer compra que os leitores façam nos três sites revertem para a livraria em destaque nesse dia.

    O futuro do livro e dos seus vários pontos de venda também é feito pelos leitores. Está nas suas mãos. Contribua.

  • por E-Primatur
    Mar 17

    Covid-19

    Notícias


    Prezados Leitores,
     
    Quando a E-Primatur, a BookBuilders ou a Livro B anunciam um projecto de um livro em crowdfunding, o valor angariado cobre uma percentagem do custo total da produção da obra numa tiragem que em parte se destina aos apoiantes e, numa parte maior, às livrarias (onde o livro terá um preço mais caro que o do apoio em crowdfunding).
     
    Devido à actual situação com a pandemia de covid-19, neste momento as livrarias estão desertas e algumas fecharam temporariamente as portas. 
     
    Não sendo possível produzir as pequenas quantidades correspondentes exclusivamente aos apoios (produção que raramente chegaria aos 100 exemplares), decidiram a E-Primatur, BookBuilders e Livro B suspender a produção da maior parte dos livros anunciados. Garantimos retomá-los em calendário a actualizar assim que haja sinais de normalização do mercado.
     
    Acabamos de colocar no mercado (e no correio) as seguintes obras:
    - Os Direitos do Homem, de H. G. Wells
    - A Dança dos Ossos. Antologia do Conto Gótico Luso-brasileiro, AAVV
     
    Temos dois projectos cuja produção está garantida:
    - As Mil e Uma Noites, volume III (A enviar aos apoiantes em Maio)
    - Contos e Apólogos, de Jean-Jaques Rousseau (A enviar aos apoiantes em finais de Abril)
     
    Para todos aqueles que apoiaram outros projectos, reiteramos a intenção de os publicar (aliás, não pararemos o processo editorial de produção), mas teremos de os recalendarizar após a normalização. Contudo, desde já nos disponibilizamos para reembolsar apoios recebidos. Caro o pretenda, envie-nos o seu IBAN e número de encomenda em causa para o e-mail geral@e-primatur.com.
     
    Ressalvamos, contudo, que pode comprar on-line os livros das três chancelas, com 10% de desconto e portes grátis. Pelo menos enquanto os CTT assegurarem o serviço de correio universal (que é provável que, nestas circunstâncias, funcione com algumas perturbações)
     
    Por último, deixamos aos nossos leitores votos de boa saúde e relembramos que o livro é ainda o meio de lazer que tem o custo mais baixo para um maior tempo de fruição,

    A Equipa
    E-Primatur | BookBuilders | Livro B

  • por E-Primatur
    Fev 25

    Os Grandes Pequenos ou os Pequenos Grandes

    Notícias

    De vez em quando queremos variar - é uma tentação de todos os editores - , queremos fazer coisas ligeiramente diferentes. E por isso magicamos aqui criar uma nova colecção, "Variações" de seu nome, e de conceito simples: obras importantes e marcantes dos mais diversos estilos, géneros, temáticas ou categorias que, originalmente, tenham sido publicados em edições com até cerca de 120 páginas.

    E assim e em 2020, três títulos para abrir as hostilidades. A saber:


    Assim e na ficção clássica, duas novelas de Honoré de Balzac incluídas na sua série A Comédia Humana em que o autor traçou os tipos humanos na sociedade moderna da altura (e que são ainda os mesmos de hoje, afinal), «O Ilustre Gaudissart» (1833) e «A Bolsa» (1832).

    No domínio da não-ficção e escrito no ano de 1940 pelo grande escritor britânico Herbert George Wells, «Os Direitos do Homem» é um dos muitos textos que o autor, escritor prolixo e incansável, deixou sobre a igualdade e os direitos universais do homem. Este pequeno texto foi a base da Carta Universal dos Direitos do Homem adoptada pelas Nações Unidas em 1948.

    «Contos e Apólogos» é um título artificial (ou editorial, se preferirem) que reúne seis histórias (dividem-se os especialistas se se trata de contos propriamente ditos ou de apólogos - e o título reflecte essa dúvida) em que o grande filósofo francês projecta no palco da ficção questões filosóficas.

    Nos próximos dias vê-los-ão aparecer no site da E-Primatur.

  • por E-Primatur
    Dez 15

    Não há dois sem três

    Notícias

     
    Muitos dos que apoiaram o projecto de tradução de As Mil e Uma Noites esperaram mais de um ano além do prazo previsto para a sua publicação. E, depois disso, houve ainda mais alguns atrasos anunciados.

    A tradução deste segundo volume chegou-nos apenas há poucas semanas e a revisão é um processo complexo num caso como este.

    Assim, temos uma boa e uma má notícia.

    A má é que o livro apenas vos será enviado em Janeiro. O prazo de produção de um livro de capa dura é mais moroso do que o de um livro brochado, e, além disso, a gráfica fecha entre o Natal e os primeiros dias do ano.

    A boa notícia é que em vez de receberem um livro receberão dois.

    Com efeito, a tradução que recebemos, bem como os apêndices e notas finais, perfazem perto de 800 páginas.

    Como tal, decidimos que o segundo volume incorporará as noites que figuram nos 4 manuscritos mais antigos que foram utilizados na tradução até agora.

    Um terceiro volume incluirá a continuação da última história que fica cortada nesses manuscritos - traduzida a partir de outros mais recentes - e também outros apêndices, nomeadamente, variantes de traduções, histórias que não são incluídas, mas apenas mencionadas nos manuscritos mais antigos, etc.

    Este terceiro volume será enviado juntamente com o segundo para os apoiantes em Janeiro, sem qualquer custo adicional. No entanto, apenas chegará às livrarias em Maio de 2020.

    Lamentamos a situação, mas foi um trabalho realmente muito complexo, sobretudo na fase final, em que a comparação entre manuscritos danificados, sem páginas finais, implicou muito tempo e um trabalho de consulta de outras fontes que atrasou a sua conclusão.
     


  • por E-Primatur
    Out 23

    A multiplicação dos Camões

    Notícias


    Devido a um atraso na entrega dos materiais que constituiriam o segundo volume das obras completas de Luiz Vaz de Camões (que viria a incluir Lírica & Teatro), e para não deixar os leitores à espera, decidimos dividir este último volume em dois. Assim, em Novembro sairá a Lírica e no primeiro semestre de 2020 sairá o Teatro.

    Os leitores que já tinham apoiado o segundo volume da obra receberão, sem custos adicionais, o segundo e o terceiro volumes.
     

  • por E-Primatur
    Out 23

    Pôr as coisas a andar

    Notícias
    http://theretroset.com/wp-content/uploads/2015/12/Horsey3.png
    Pequeno ponto de situação:
    - As Mil e Uma Noites, Vol. II
    Começo de Dezembro (com todas as garantias)
    - Contos e Novelas Completos de Camilo Castelo Branco, Vol. I
    Novembro.
    - Obras Completas de Luiz Vaz de Camões, Vol. II (Lírica)
    Novembro (espreite por favor o post posterior a este aqui no blogue.)
    - Périplo pelos Bares do Mediterrâneo, de Ali Duaji
    Vai passar para o primeiro semestre de 2020 - o tradutor é o Hugo Maia, que só agora acabou as 1001 noites...

    P.s.: E sim, é o Harold Lloyd na fotografia.

  • por E-Primatur
    Dez 15

    Livros E-Primatur e BookBuilders no Plano Nacional de Leitura

    Notícias


    Os livros da E-Primatur e da BookBuilders integram, pela primeira vez, o Plano Nacional de Leitura (PNL2027) e foram logo 17 de uma vez!

    TÍTULOS E-PRIMATUR
    - O Anel dos Löwenskölds, de Selma Lagerlöf
    - Bambi: Uma Vida nos Bosques, de Felix Salten, ilustrado por Pedro Salvador Mendes
    - A Casa Sombria, de Charles Dickens, ilustrado por Hablot K. Browne «Phiz»
    - Ficção Curta Completa, Vol.I, de H. G. Wells
    - O inferno: peça-julgamento em 3 audiências e 8 retrospectivas, de Bernardo Santareno
    - Ivanhoe, de Walter Scott, ilustrado por Adolphe Lalauze
    - Lassie, de Eric Knight, ilustrado por Marguerite Kirmse
    - As Mil e Uma Noites, Vol.I, de autor Anónimo
    - Obras Completas de Luiz Vaz de Camões, Vol.I Épica & Cartas, Introdução, organização e notas de Maria Vitalina Leal de Matos
    - Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, Volume I - Ficção, Apresentação, organização e notas de Tania Martuscelli
    - Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, Volume II - Poesia, Apresentação, organização e notas de Tania Martuscelli
    - Obra Essencial de Mário de Sá-Carneiro, planeada por Fernando Pessoa, com edição e organização de Vasco Silva
    - Oliver Twist, de Charles Dickens, ilustrado por George Cruikshank
    - Tempos Difíceis, de Charles Dickens, ilustrado por Harry French

    TÍTULOS BOOKBUILDERS

    - Espanha e Catalunha: Choque Entre Nacionalismos, de Filipe Vasconcelos Romão
    - O Mar: Uma História Cultural, de John Mack
    - A Política Como Vocação (seguida de) A Ciência Como Vocação, de Max Weber

  • por E-Primatur
    Out 23

    Um azar nunca vem só

    Ponto de situação


    Há umas semanas informámos os nossos leitores de um atraso na publicação de um livro que teve de passar para o ano que vem.

    Infelizmente, a situação repete-se.

    É sempre difícil: trabalhamos em crwodfunding, o que significa que quando lançamos um projecto estamos ainda incertos da sua calendarização, pois o anúncio é feito com antecedência.

    Acontece, sobretudo com livros de maior dimensão, que nem sempre conseguimos prever com rigor as vicissitudes de cada tradução ou edição.

    São três os títulos que serão adiados para o primeiro trimestre de 2019:

    Ficção Curta Completa, de Herman Melville: trata-se de uma revisão muito complexa de textos de um dos mais notáveis escritores de língua inglesa de todos os tempos, cheio de referências históricas e quotidianas de outras épocas. Houve vários atrasos na tradução, e, por esse motivo, a revisão ressentiu-se do atraso. São perto de 700 páginas que não conseguiremos ter prontas este ano.

    Obras Completas de Luiz Vaz de Camões, Volume II: Lírica e Teatro. Neste caso, trata-se da fixação de texto de textos antigos, bem como da escolha das fontes a seguir. A Lírica está pronta, mas o Teatro tardou.

    As Mil e Uma Noites, Volume II. Neste caso, deixamos o tradutor falar:

    Caro leitor,
    a publicação do segundo e último volume da tradução d’ As Mil e Uma Noites estava prevista para esta época natalícia de 2018. Infelizmente, a complexidade desta tradução e o rigor exigido não permitirão cumprir esse prazo, e, como tradutor desta obra, gostaria de prestar alguns esclarecimentos para que se entendam os motivos deste atraso.

    A prosa dos manuscritos árabes — nomeadamente do manuscrito principal usado como fonte, com as cotas 3609-3611 arabe da Bibliothèque Nationale de France — não é fácil, não tanto pela época em que foi produzida — século XIV, sendo considerado o manuscrito mais antigo e primitivo d' As Noites — mas pela linguagem usada, que, ao contrário do habitual na esmagadora maioria de escritos árabes antigos, não é o chamado árabe padrão usado na escrita e em circunstâncias oficiais, mas uma linguagem que mistura esse árabe padrão com o árabe coloquial, nomeadamente, as línguas árabes coloquiais da Síria e do Egipto da época. Porque estas línguas árabes coloquiais não eram usadas na escrita, não existem muitas outras fontes de comparação e muitos vocábulos e expressões não constam sequer nos dicionários clássicos, nem sobreviveram nas referidas línguas até aos dias de hoje. Só no século XIX, pela mão de diferentes lexicógrafos, tanto no Líbano, como em França e Inglaterra, começaram a surgir dicionários contendo elementos mais orais e vernaculares da língua, alguns incluindo mesmo expressões citadas directamente dos manuscritos d' As Noites e outros similares. Além do mais, As Mil e Uma Noites — e, por este título, estamos sempre a referir-nos às versões dos manuscritos mais antigos — contêm também algumas expressões que lhe são únicas, não aparecendo noutros escritos que se reportam à mesma época e que também incorporam a linguagem vernacular, tais como As Histórias Maravilhosas e Estranhas Novas ou Sindbad, o Marinheiro.

    No que diz respeito à prosa, a questão linguística que acabou de ser explanada talvez seja o ponto mais complexo da tradução, mas não o único. O que é certo é que a complexidade deste texto árabe implica uma dedicação de tempo muito superior à que inicialmente foi prevista, de forma a ser possível comparar um enorme conjunto de fontes árabes, tais como outras versões d’ As Noites, dicionários, livros de viagem, geografia, ficção, poesia e por aí fora, sem descurar também outras traduções d’ As Noites. Costumo dizer que quem traduz literatura contemporânea árabe, comparando com traduções já feitas noutras línguas, se calhar tem alguma falta de imaginação, de conhecimentos básicos ou de confiança; mas quem traduz literatura antiga sem comparar com o que já foi feito, é, no mínimo, irresponsável.

    No entanto, verdade seja dita, não é na prosa que se encontram as dificuldades maiores, mas na poesia. Os poemas d’ As Mil e Uma Noites não são meramente decorativos, muito pelo contrário, complementam o sentido da prosa, trazendo elementos à narrativa em que a linguagem da prosa não se afigura a mais adequada, e, sem esses elementos, a narrativa não pode ser compreendida plenamente. Não quis esta tradução fazer o mesmo que outras já fizeram, nomeadamente, descurar os poemas, seja através da sua simples eliminação, conversação em prosa ou tradução livre. O facto de ser importantíssimo trazer a letra e o sentido desses poemas para português leva a que o tradutor, mesmo que quisesse improvisar, fique com uma margem de manobra muito reduzida. E, por outro lado, também é necessário que os poemas em português soem a poemas porque, caso contrário, seriam prosa em verso. Juntar estes dois critérios, o de sentido e significado com o estético, implica um investimento de tempo bem maior do que o da prosa.

    Dado tudo quanto antecede, não poderia eu deixar de apresentar as minhas mais sinceras desculpas por este atraso e pelo tempo demasiado largo entre a publicação do primeiro e do segundo volume, na expectativa de que o leitor compreenda que este atraso é ditado pelo rigor exigido a esta tradução.
                                                                                                                      Hugo Maia (tradutor)



    Assim, o que podemos prometer aos leitores é que a espera vai valer a pena e que estas situações nos servirão para que, de futuro, comecemos a estimar melhor os tempos de tradução.

    Os Editores

  • por E-Primatur
    Set 24

    Uma palavra sobre a tradução de «Os Contos de Cantuária»

    Notícias

     
     
                    Quando plo seco Março entra Abril
    Levando à raiz as águas mil
    E embebendo as veias em licor,
    Virtude com a qual se engendra a flor;
    Quando Zéfiro, o próprio, um novo alento                                                   5
    Por bosque ou urze à folha e ao rebento
    Inspira, e o sol jovem ao Carneiro
    Marrou já pla metade o seu carreiro
    E as tenras aves vão melodiando
    Do sono de olho aberto despertando                                                             10
    (Assim a Natureza as atiça);
    Então o peregrino pede missa
    E horizontes remotos o palmeiro,
    Altares de fama em estranho paradeiro;
    Mormente em Inglaterra, se há condado                                                      15
    Que o seja, a Cantuária é levado    
    A ver o santo mártir que lhes vale
    No leito acamado do hospital.
                Ora nessa estação e nesse dia,
    No The Tabard em Southwark eu jazia                                                                          20
    À espera de ir de todo o coração
    A Cantuária em peregrinação,
    Chegou à noite àquela hospedagem
    Um grupo, uns vinte e nove, de romagem,
    Sortida gente em trupe casual,                                                                                       25
    Pois peregrinos eram no geral
    Que a Cantuária iam em rebanho.
    Aos quartos e aos estábulos tamanho
    Não lhes faltava, nem a nós conforto.
    E quando o sol se pôs em longe porto                                                                          30
    Já eu com todos tinha conversado
    E, um deles me tornando, concordado
    Fazer-me à estrada cedo ao acordar
    Para a jornada, a qual vos vou contar.
     
     
    O excerto acima reproduz os primeiros versos de Os Contos de Cantuária, concretamente do seu Prólogo Geral. Com eles pretendo dar, de um modo especial, uma amostra do tom e do ritmo presentes ao longo do meu trabalho de tradução da obra. Embora realizando uma antiga vontade, traduzir Os Contos de Cantuária materializa uma não inesperada dificuldade. Talvez nenhuma obra antes, à excepção possível de Paraíso Perdido de John Milton, pudesse apresentar as vicissitudes do texto de Chaucer. Elas são de dupla ordem: por um lado fazer afeiçoar ao texto português dos nossos dias um texto em medievo inglês; por outro, fazê-lo chegar a salvo dos meros rigores técnicos, tendo sido capaz de preservar a vitalidade retórica e estilística do texto original. Quero com isto dizer que a manipulação da linguagem, as escolhas minuciosas que lhe são inerentes, a sua articulação geral, enfim, o texto obtido, não deve manifestar a dificuldade da sua engenharia, antes mostrar a sua gentil e turística arquitectura. O leitor português de Chaucer deverá, pois, ser merecedor de ler Chaucer sem ser insistentemente lembrado do percurso do seu tradutor. A par disto, é minha política e desiderato fazer do texto português um irmão estilístico da obra de que parte. Assim, Os Contos da Cantuária terão, idealmente, os mesmos versos do texto original e obedecerão, tanto quanto possível, a um esquema métrico que procurará imitar o andante do pentâmetro jâmbico presente na obra de Chaucer. Isto significa que o verso português frequentará, com tanta regularidade quanto lhe for possível, o modelo decassílabo, embora a sua vocação seja, analogamente à percussão inglesa, a alternância entre um pé fraco e um pé forte (e. g. À es/pe/ra /de_ir/de/to/do_o/co/ra/ção.) A acrescentar a isto, o texto português imitará, semelhantemente, o esquema rimático original, o qual consiste em dísticos. A preservação da rima não consiste numa mera vaidade nem tampouco numa experiência de mortificação interior; ela visa preservar o elemento melódico que é responsável directo pelo tão característico humor presente nesta obra. Assim, a rima é parte integrante deste portentoso edifício literário, é aquilo que o permite ser o que é e produzir no leitor aquilo que produz. Mas esta garantia não deverá implicar o descurar de uma outra: a pobreza da rima, a sua execução como um fim em si mesmo. É necessário que a correspondência de sons seja completa e, a par disto, imbuída de toda a discrição possível. Ora, esta operação é, compreensivelmente, demorada e complexa. Não raras vezes dei por mim literalmente embargado muitas horas a fio diante de certos passos, tentando perceber como moldar o texto ao desejado, sem sacrificar nenhuma das dimensões de que já fiz nota, e, claro está, sem a isso forçar o seu sentido. Ora, para garantir um tal movimento harmónico de sentido e prosódia, o tradutor precisa de se entregar a uma luta física e espiritual com o texto que quer emular. Este caderno de encargos pessoal implica alguma imprevisibilidade, no entanto é inegociável, ainda que o caminho se apresente pedregoso e longo o tempo desta peregrinação pessoal. Estou convencido de que o leitor de Chaucer será o último beneficiário desta rigorosa escolha, a qual, no seu grau último, há-de transformar Canterbury Tales em Os Contos de Cantuária. De facto, tal como acontece com aquelas personagens em peregrinação ao túmulo do santo com que em breve iremos partilhar a jornada, é um credo que me anima: o de trazer ao leitor português uma obra extraordinária, um dos mais estabelecidos e antigos marcos da literatura universal, cuidando nesse credo que, apesar das vicissitudes e as travagens inesperadas nesta longa peregrinação em que se fez a tradução, esta foi capaz de, apesar de muito provada, trazer intacta ao seu leitor o texto sacro que revelou afinal ser a grande busca dos seus peregrinos, a própria materialização do túmulo de São Thomas Becket, o santo mártir de Cantuária, motor de uma peregrinação narrativa que se tornou, ela própria, o grande relicário, o objecto de peregrinação e fim último e transformativo do seu leitor.
     
     
    Daniel Jonas  

    [A tradução será entregue no primeiro semestre de 2019.]

  • por E-Primatur
    Mai 09

    A Casa Sombria de Dickens

    Notícia


    Proposta de um leitor que preferiu manter o anonimato, esta é a primeira edição portuguesa a incorporar o prefácio do próprio Charles Dickens, a introdução escrita por G. K. Chesterton para a edição do centenário das obras de Dickens e as ilustrações de «Phiz» (Hablot K. Browne) criadas para a primeira edição da obra.

    Para muitos é o melhor romance de Dickens - este é o verdadeiro romance global em que virtualmente toda a cidade de Londres e os seus habitantes são personagens manipulados por um gigantesco processo judicial. Depois da publicação deste romance, o sistema jurídico britâncico sofreu uma enorme reforma. Mais uma vez, a literatura de Dickens mudou a realidade para melhor.


    Este livro não passou por um período de crowdfunding para poder estar disponível a tempo da Feira do Livro.

  • por E-primatur
    Mar 30

    Design premiado

    Notícia






























    O Design de Susana Villar / Paper Talk para o livro «As Mil e Uma Noites» mereceu o terceiro prémio no 2.º Concurso Criativo Antalis (estabelecido em parceria com a Arjo Wiggins) na categoria Packaging Criativo.

  • por E-primatur
    Dez 26

    A E-Primatur e a BookBuilders nos livros do ano 2017

    Listas
    http://www.peachridgeglass.com/wp-content/uploads/2013/02/Megaphone.jpg

    LIVROS DO ANO 2017:

    Time out (escolha de João Morales):
    - Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, vol. 1 Ficção

    Observador:
    - Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, vol. 1 Ficção (Escolha de Nuno Costa Santos)
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1 (escolha de Rita Cipriano)

    Semanário Sol:
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1
    - Obras Completas de Luiz Vaz de Camões, Vol. 1: Épica & Cartas
    - Manual de Etiqueta, de José Vilhena

    Expresso:
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1 (escolha de José Guardado Moreira
    - Voss, de Patrick White (Escolha de José Guardado Moreira)
    - Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, vol. 1 Ficção (destaque do ano de José Guardado Moreira)
    - A Vida e o Sonho, Antologia de Rauol Brandão organizada por Vasco Rosa (destaque do ano de Pedro Mexia)
    - Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, vol. 1 Ficção (destaque do ano de Pedro Mexia)
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1 (destaque do ano de José Mário Silva)
    - O Caso do Camarada Tulçaev, de Victor Serge (escolha de Luís M. Faria)
    - A República, de Platão, edição de Elísio Gala [BookBuilders] (escolha de Luís M. Faria)

    Jornal i:
    - Manual de Etiqueta, de José Vilhena (escolha de Teresa Carvalho)
    - Obras Completas de Luiz Vaz de Camões, Vol. 1: Épica & Cartas (escolha de Teresa Carvalho)
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1 (escolha de Teresa Carvalho)

    Blogue Rascunhos (as melhores leituras de 2017):
    - História Natural da Estupidez, de Paul Tabori [BookBuilders]

    Expresso (Sugestões de Natal):
    - História Natural da Estupidez, de Paul Tabori [BookBuilders] (escolha de José Guardado Moreira)
    - Ficção curta Completa, vol. 1, de H. G. Wells (escolha de Luís M. Faria)

    Jornal da Madeira (Sugestões de Natal)
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1, de Anónimo
    - Ficção curta Completa, vol. 1, de H. G. Wells

    Alexandra Lucas Coelho (na sua página de Facebook):
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1, de Anónimo

    Comunidade Cultura e Arte:
    - As Mil e Uma noites, Vol. 1, de Anónimo ("para além de ser um dos livros do ano é um dos acontecimentos editoriais do ano")

    Balanço do Ano 2017 - Livraria Lello
    - As Mil e Uma Noites, Vol. 1, de Anónimo

    Livros com RUM (Rádio Universitária do Minho) - os melhores do ano:
    - Forte como a Morte (seguido de) Pierre e Jean, de Guy de Maupassant (escolha de António Ferreira)

  • por E-primatur
    Jun 01

    E-Primatur e BookBuilders na 87.ª Feira do Livro de Lisboa

    Notícia
    Estamos pela primeira vez na Feira do Livro de Lisboa com pavilhão próprio: venha visitar-nos no stand C04.





  • por E-primatur
    Fev 06

    Jurgen Ilustrado

    Excertos
    A edição original de «Jurgen», de James Branch Cabell, edição essa ainda anterior ao processo por obscenidade, tinha ilustrações (12) de Ray Frederick Coyle (1885-1924), discípulo americano de Aubrey Beardsley, da sua escola e da sua estética.

    As 12 ilustrações são incluídas no final do texto da nossa edição. Eis alguns exemplos:



    Após o processo mediático, o ilustrador britânico Frank C. Papé, um dos mais notáveis da viragem de século, cria várias ilustrações e gravuras para a edição "liberta". Essas são as ilustrações que acompanham o texto da nossa edição. Alguns exemplos:


    Bom proveito!

  • por E-primatur
    Nov 06

    Últimas Novidades do Ano

    Notícias
    ÚLTIMA OPORTUNIDADE PARA APOIAR EM  Crowdfunding por cerca de 2/3 (ou menos ainda!) do valor que o livro posteriormente terá em livraria e receber em sua casa até dia 14 (inclusivé). Os livros serão enviados pelos CTT durante essa semana. (Clique nas imagens para saber mais sobre as obras ou para apoiar.)




    ÚLTIMA OPORTUNIDADE PARA APOIAR EM  Crowdfunding por cerca de 2/3 (ou menos ainda!) do valor que o livro posteriormente terá em livraria e receber em sua casa até dia 21 (inclusivé). Os livros serão enviados pelos CTT durante essa semana. (Clique nas imagens para saber mais sobre as obras ou para apoiar.)

    Em pré-venda com 20% de desconto até dia 21:


     

  • por Hugo Xavier
    Nov 04

    Contemporânea

    Notícias
    A nossa chancela "irmã", a BookBuilders vai lançar durante o mês de Novembro a sua nova série de literatura dedicada a obras contemporâneas.

    Estou particularmente orgulhoso de informar que vamos publicar dois livros diferentes mas igualmente brilhantes e premiados.

    Por um lado volto a publicar um autor que já tinha publicado na Ulisseia, o Fernando Esteves Pinto, que recebeu há perto de um mês o Prémio Literário Cidade de Almada 2016 pelo seu romance «A Caverna de Deus».



    Trata-se, como acontece com a maior parte da produção literária romanesca do autor, de uma obra que navega as águas profundas e escuras da alma humana mergulhando sempre pelo lado da psicologia nos traumas que nos definem e definem igualmente as "manias" (uso o termo numa acepção técnica da psicologia e sem qualquer carga negativa - como o autor) que nos fazem diferentes uns dos outros.

    Neste romance em particular, FEP mergulha no mundo da criação artística. O Pintor enquanto Criador-Deus e a capacidade que a arte tem de nos obrigar a desnudar a alma quando dela somos objecto são os temas principais.

    Os romances de FEP não deixam os leitores indiferentes e, muitas vezes, incomodam porque não têm peias em falar daquilo que não gostamos de reconhecer em nós mesmos mas essa é uma das funções mais importantes da literatura e da arte e é também por isso que não conseguimos fugir delas: a nossa atracção pelo abismo.

    Numa obra totalmente diferente, Dejan Tiago-Stanković, tradutor literário com quem trabalhei noutros tempos em autores como o prémio Nobel Ivo Andrić ou Dragoslav Mihailović que é igualmente tradutor para servo-croata de Saramago ou Cardoso Pires (entre outros) publicou em 2015 na Sérvia «Estoril - Um Romance de Guerra». Obra que foi finalista de vários prémios literários e que, em 2016, recebeu o Prémio Branko Ćopić da Academia Sérvia das Artes e Ciências, o mais importante prémio de romance no país e que premeia o melhor romance publicado durante o ano anterior.



    Umna obra que retrata o mundo dos exilados da segunda guerra mundial na sua passagem (e por vezes longa estada) em Portugal. Entre uma Lisboa que filtra e controla um mundo obscuro de espionagem e contra-informação por onde se movem personagens incomums como Dusko Popov, o homem que inspirou Ian Fleming (que também é personagem do romance) para o seu James Bond, e o Estoril, Riviera possível numa Europa em convulsões constantes, onde se instalam os muito ricos, imensamente influentes ou incrivelmente afortunados.

    O romance resulta de mais de um ano de investigação em documentos (muitos dos quais reproduzidos no livro) e arquivos. Alguns desses documentos, devido à língua em que tinham sido escritos nunca antes tinham sido interpretados. A trama da obra é, portanto, semi-ficcional: personagens fictícias cruzam-se com a crème de la crème europeia, com Dusko Popov e outros espiões, com loucos como Ian Fleming ou sonhadores como Saint-Exupéy.

    As questões que o livro levanta são muitas. Fala-nos de exílios numa época em que a questão é extremamente pertinente, fala-nos de como é possível "criar" numa época de destruição e sempre de como é possível sonhar. fala-nos também de Portugal nos anos 40.

  • por E-primatur
    Set 10

    Os atrasos e os cossacos

    Notícias
    Caros Leitores, temos de atrasar para o começo de 2017 a publicação de «Tarass bulba, o Cossaco» de Gogol. O motivo é bom contudo: decidimos traduzir não apenas o texto canónico mas também a primeira versão, escrita por Gogol muitos anos antes e que foi censurada pelas autoridades russas por ser demasiado "ucraniana". As diferenças são grandes (a segunda versão tem quase o dobro das páginas da primeira) e ajudam a perceber muito claramente tensões étnicas e políticas da região que levam aos actuais conflitos.

    Seja como for, já temos capa:


    Queríamos ainda explicar um pouco os atrasos que algumas edições têm tido e que vos temos vindo a comunicar. Como sabem, funcionamos num sistema de crowdfunding, o que significa que anunciamos as obras e os seus prazos de publicação com bastante antecedência. Há livros cujo processo de produção já está encaminhado (por exemplo quando somos contactados por tradutores que já têm traduções feitas), outros há em que fazemos estimativas. E quando fazemos estimativas, e porque somos humanos, é sempre possível que haja atrasos.

    Já houve atrasos porque a cartolina das capas esgotou; já houve atrasos porque o tradutor se atrasou; porque a revisão foi mais demorada. Porque, como no caso do livro do Gogol, as próprias características da edição mudaram a meio do processo; ainda recentemente o Dickens («Tempos Difíceis») atrasou-se porque decidimos incluir as ilustrações de Harry French e o prefácio de G. K. Chesterton... Assim e para resumir, a generalidade dos atrasos garantem-vos um melhor livro.

    Claro que não pretendemos sistematizar os atrasos e com cada um vamos aprendendo a corrigir/antecipar situações semelhantes no futuro.

    Ficam pois os votos para que gostem do «Tarass Bulba», esse velho e empenhado cossaco, e de que continuem a construir esta editora connosco.

  • por Hugo Xavier
    Jul 16

    Traduzir o Camarada Tulaev

    Explicação
    Em 2010, quando fui director editorial da Ulisseia no grupo Babel, propus e pus em andamento a tradução de uma obra que ninguém conhecia. Tratava-se de um livro esquecido de um esquecido autor russo no exílio que, na altura, começava a ser redescoberta em vários países europeus. Ainda não tinha aparecido a edição da New York Review of Books Classics. Pouca ou nenhuma informação se encontrava na internet sobre Victor Serge e o seu «Caso do Camarada Tulaev» que, hoje em dia, são um autor e romance de culto da literatura europeia.

    Contactei na altura o tradutor Valdimir Afonin que, como a maior parte das pessoas, não conhecia Victor Serge. Eu pedi-lhe que ele tentasse localizar o original e perceber quantas páginas teria e a dificuldade da tradução.

    Tentar encontrar informação sobre Serge era, como indiquei, complicado na altura. Havia alguma informação geralmente contraditória na internet e algumas edições de micro editoras europeias cujos tamanhos da obra diferiam substancialmente.

    O Valdimir Afonin finalmente percebeu aquilo que hoje sabemos e descobrimos com facilidade: Serge escrevera o seu livro no exílio e em língua francesa. O Valdimir propos então uma redução do valor da tradução - tinha-lhe feito uma proposta para uma tradução do russo que se paga mais cara do que uma tradução do francês  - e ele e a sua molher - Ana Osório - que tinha formação em língua francesa fariam a tradução.

    E assim, no começo de 2011, coincidindo com a edição americana da NYRBClassics cuja introdução e apresentação coube a Susan Sontage, estava pronta a tradução portuguesa. Infelizmente na Babel não houve luz verde para a publicação do livro. Pior do que isso, já na fase final da revisão da tradução, Valdimir Afonin faleceu. No final de 2011 saí da editora.

    Já em 2015, quando comecei a trabalhar no projecto da E-primatur, contactamos a Babel para saber se nos vendiam a tradução mas tal não foi, infelizmente, possível. Queria publicar o livro mas sentia também uma dívida de amizade para com o Vladimir e a Ana Osório.

    Face à situação, contactei o Francisco Silva Pereira que fez um excelente trabalho cujo resultado pode agora ser encontrado nas livrarias mas não queria deixar de prestar a minha homenagem ao Vladimir e agradecer à Ana Osório. Gostaria de ter trabalhado mais com eles.



  • por E-primatur
    Jun 28

    Raríssima gravação da voz de Mário-Henrique Leiria

    Curiosidades
    Graças ao nosso padrinho Nuno Fonseca, temos o prazer de vos trazer uma notável e raríssima gravação da voz de Mário-Henrique Leiria.
     

  • por E-primatur
    Mai 26

    E-primatur e BookBuilders na Feira do Livro de Lisboa

    Notícias
    A E-primatur e a BookBuilders vão estar representadas no stand D20 da Livraria e Editora Letra Livre na 86.ª Feira do Livro de Lisboa.

    Quem tem o Marquês pelas costas, estamos logo ali ao lado direito quem começa a subir a feira. Venha visitar-nos bem como às excelentes editoras que partilham esse stand connosco.

  • por E-primatur
    Abr 28

    Dickens, edição ilustrada

    Boas novas
    Ao contrário da grande maior parte dos livros de Charles Dickens, «Tempos Difíceis» teve poucas edições ilustradas. Depois de ter sido serializado em folhetim (sem ilustrações), a sua primeira publicação em formato de livro apresentava apenas uma ilustração e, na edição posterior, quatro gravuras.

    A edição de 1870 foi a primeira (e uma das poucas) a contar com um programa pensado de ilustração da obra e continha, como tal, 20 gravuras do ilustrador Harry French. Essas serão as ilustraçõers inclusas no volume que publicaremos em breve e que contará, igualmente, com um prefácio de G. K. Chesterton.

    No começo de Abril nas livrarias - aproveite os últimos dias para poder apoiar em crowdfunding e receber o livro por um valor de cerca de 2/3 do que terá posteriormente em livraria.

  • por E-primatur
    Mar 28

    Concurso para ilustração do clássico «Bambi»

    Notícias


    Em Outubro a editora E-primatur vai publicar o clássico que encantou gerações («Bambi: Uma Vida na Floresta») naquela que será a primeira tradução a partir do texto original de Felix Salten feita desde os anos 40 do século XX.

    Decidimos abrir um pequeno concurso para encontrar o ilustrador para esta obra.

    Pretendem-se 10 ou mais ilustrações em preto e branco para o miolo do livro.

    Cada candidato deve enviar duas ilustrações para geral@e-primatur.com (com a indicação "concurso de ilustração" no assunto da mensagem).

    As ilustrações concorrentes serão colocadas, acompanhadas do nome do candidato, na página de Facebook do concurso.

    O concurso encontra-se aberto até 1 de Julho, sendo que os candidatos que concorram deverão estar prontos para, em caso de vitória, ter as restantes ilustrações prontas até 1 de Setembro.

    A vitória será decidida por três votos: 1 voto do público através do Facebook; 1 voto dos editores da E-primatur e 1 voto da directora gráfica da editora.

    O vencedor do concurso receberá 1500€ e terá o seu nome, biografia e sítio de internet (caso pretenda) referidos no livro e no nosso sítio.

    Para mais detalhes consulte a página do concurso no Facebook.


  • por Hugo Xavier
    Mar 10

    BookBuilders

    Anúncios


    Quando a E-primatur nasceu, pensámos sempre que queríamos ir para lá do projecto base. Se a E-primatur era uma editora feita a partir das sugestões dos leitores, padrinhos do projecto e dos seus editores, porque não usar o mecanismo de crowdfunding para abrir as portas a projectos que possam vir de qualquer outra origem? Um complemento de uma editora que partia de um conceito bem claro e definido completado por uma "outra face" que era por excelência caótica e que tivesse por único critério a qualidade.

    Também decidimos imediatamente que só entrariam nessa chancela obras que consideramos que tenham "nível" para tal ainda que não sejam os clássicos ou livros de referência generalistas que publicamos na E-primatur: Para além de edições nossas poderemos abrir a porta a edições de autor, edições de outras editoras ou entidades que queiram, por exemplo, testar o mercado em áreas de edição diferentes das suas habituais. Sejam eles livros para nichos específicos de mercado que a maior parte das editoras ignora ou livros de grande potencial comercial.
     
    Foi assim que surgiu a BookBuilders que está agora a começar e que virá a crescer bastante em breve. Venha conhecê-la no seu sítio em www.bookbuilders.net e adicione a página de Facebook da Bookbuilders em www.facebook.com/bookbuilders.net/

    Inscrevendo-se no sítio da BookBuilders pode apresentar o seu pro jecto. Esse será analisado pela equipe editorial. Caso seja aceite poderemos considerar que:

    a) tendo qualidade é uma obra que não faz sentido na nossa chancela: nesse caso poderá usar o nosso motor de crowdfunding e tentar encontrar o público para a sua obra; neste caso a Bookbuilders poderá ser meramente uma agência de produção para o ajudar a tornar o seu livro uma realidade.

    b) tem qualidade e faz sentido na nossa chancela. Ajudamo-lo a criar a sua obra e a procurar o público que viabilize a obra.

    Não somos nem pretendemos ser uma "vanity press", sinceramente não temos tempo para perder com obras nas quais não acreditamos só pelo dinheiro.

    Seja parte desta editora.


  • por Hugo Xavier
    Mar 08

    Edição do Centenário

    Boas novas
    Em 1928, Fernando Pessoa e João Gaspar Simões (representando a revista presença) trocaram correspondência. Queria aquela publicação levar a cabo a edição das obras de Mário de Sá-Carneiro e convidava para tal Fernando Pessoa (o que, de alguma forma, se constituia quase como um cumprimento testamentário do escritor suicida).

    O plano da obra chegou a ser anunciado nas páginas da revista mas tal edição não viu nunca a luz do dia.

    Em 2016 comemora-se o centenário da morte de Sá-Carneiro e aparecerá pela primeira vez a edição da obra de Mário de Sá-Carneiro como Fernando Pessoa sonhou editá-la.

    Trata-se de uma edição preparada por Vasco Silva com vários anexos e apêndices documentais sobre o autor e a sua obra para além dos planos de obra preparados por Fernando Pessoa. A edição será cartonada (capa dura) e terá perto de 600 páginas; estará no mercado em finais de Março.

    Até lá estará disponível para apoio em Crowdfunding. Relembramos que o valor do apoio é de aproximadamente 2/3 do valor que o livro posteriormente terá em livraria. Reserve já o seu exemplar da edição definitiva como Pessoa a pensou.


  • por E-primatur
    Jan 05

    A maior obra literária portuguesa contra a discriminação

    Boas novas


    Da história de António José da Silva - "o judeu" - cuja vida seria, a partir deste romance de Camilo, tratada por Bernardo Santareno, reza apenas um quarto deste livro que segue os antecedentes familiares do dramaturgo do século XVIII.

    Romance histórico, saga familiar, expoente máximo do romance do romantismo, «O Judeu» é provavelmente a única grande obra da literatura portuguesa, juntamente com a homónima de Santareno (mas muito mais abrangente e panorâmica), a constituir-se como um libelo contra a discriminação.

    Ao mesmo tempo, temos um Camilo brilhante no seu fogo de artifício verbal e contundente no sentido de humor irónico e sarcástico.

    As obras publicadas pela E-primatur só serão possívei com o seu apoio que fazendo uma doação (e recebendo posteriormente o livro por cerca de 2/3 do valor que terá em livraria), quer divulgando junto dos seus amigos que possam ter interesse. Quanto mais divulgar, mais oportunidades haverá para que o livro encontre o "seu comprador" e como no Facebook e nas redes sociais tudo se partilha, porque não partilhar um projecto de qualidade?

  • por Hugo Xavier
    Dez 30

    Melhores leituras de 2015 - escolhas de Hugo Xavier

    Listas

    De regresso à edição, as leituras ficaram mais condicionadas a livros "em estrangeiro". A lista que se segue, na tradição do que faço desde há uns anos, incluí obras que já tinha lido no original e que agora estão publicadas em português, algumas reedições e muito poucos "divertimentos". Como, de costume, também, abstenho-me de falar do que li publicado fora do país, por motivos profissionais.

    Última nota para reiterar que não há qualquer tipo de ordem nas escolhas que se seguem em termos de prioridade.

    - Oblomov, de Ivan Goncharov - Tinta-da-China (eu queria fazer este há anos, em 2013 falei com a Nina Guerra durante um colóquio sobre tradução de línguas eslavas, parabéns TdC, roo-me de inveja - li em inglês, não conheço a tradução)

    - Retrato do Artista quando Jovem Cão e Outras Histórias - Ficção Completa, de Dylan Thomas - Livros do Brasil (li no original, não conheço a tradução)

    - O meteorologista, de Olivier Rolin - Sextante

    - Freya das sete ilhas, de Joseph Conrad - Sistema Solar

    - Obras Escolhidas, vol. 1, de Hélia Correia - Relógio d'Água

    - Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, de Pedro Piedade Marques - Montag (uma pedrada no charco)

    - Em Movimento: Uma Vida, de Oliver Sacks - Relógio d'Água (só espero que o Oliver tenha uma arca como a do Pessoa)

    - Música para Água Ardente, de Charles Bukowski - Antígona li no original, não conheço a tradução)

    - Luz nos livros, de António Campos Leal - Tinta-da-China

    - Lila, de Marilynne Robinson - Presença (li no original, não conheço a tradução)

    - O Que Vemos Quando Lemos, de Peter Mendelsund - Elsinore (li no original, não conheço a tradução)

    - Uma Conspiração de Estúpidos, de John Kennedy Toole - Relógio d'Água (li no original, não conheço a tradução)

    - O Jantar, de Herman Koch - Alfaguara (li em espanhol, não conheço a tradução)

    - Mapa Desenhado Por Um Espião, de Guillermo Cabrera Infante - Quetzal finalmente Cabrera Infante de volta!)

    - A de açor, de Helen MacDonald - Lua de Papel (li no original, não conheço a tradução)

    - A Vida Amorosa de Nathaniel P., de Adelle Waldman - Teorema (li no original, não conheço a tradução)

    - Se isto é uma mulher, de Sarah Helm - Presença (li no original, não conheço a tradução)

    - Pippi Sobe a Bordo, de Astrid Lindgren - Relógio d'Água )li em inglês, não conheço a tradução, espero que seja do original)

    - Eu confesso, de Jaume Cabré - Tinta-da-China

    - Obra escrita 2, de João César Monteiro - Letra Livre

    - O Sol dos Mortos, de Ivan Chmeliov - Relógio d'Água

    - O Outro Lado do Paraíso, de Paul Theroux - Quetzal (li no original, não conheço a tradução)

    - Tudo o que Conta, de James Salter - Livros do Brasil (li no original, não conheço a tradução)

    - Telex de Cuba, de Rachel Kushner - Relógio d'Água (li no original, não conheço a tradução)

    - Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida - Teorema

    - Por fim, de Edward St Aubyn - Sextante (li no original, não conheço a tradução, o melhor livro da saga é "Leite materno" que apareceu no volume de 2014 "Alguma esperança e Leite materno")

    - O Cheirinho do Amor, de Reinaldo Moraes - Quetzal

    - Contos e novelas I, de Saul Bellow - Relógio d'Água (li no original, não conheço a tradução)

    - Esta Distante Proximidade, de Rebecca Solnit - Quetzal (li no original, não conheço a tradução)

    - Uma história da curiosidade, de Alberto Manguel - Tinta-da-China

    - Da natureza das coisas, de Lucrécio - Relógio d'Água (finalmente em português, não conheço a tradução)

    - Histórias das Terras e dos Lugares Lendários, de Umberto Eco - Gradiva (para rivalizar com o vizinho Manguel, de há uns anos para cá que Eco prometia este livro: as suas obras de ficção estão a tornar-se cada vez mais - não li a última - repositórios de fogo-de-artifício cultural "olhem como sou culto e sei tantas coisas que vós desconheceis", ao menos agora fá-lo-á com propriedade)

    Queria apenas concluir afirmando que 2015 viu uma panóplia de excelentes edições no mercado vindas de diversos quadrantes. Infelizmente, e em muitos casos, catálogos desarrumados, falta de identidade editorial, má comunicação, têm contribuído para que muitos autores e obras passem despercebidos. Publicaram-se bastantes escritores portugueses, talvez percentualmente mais do que nos últimos anos.

    Votos de um 2016 ainda melhor

  • por Pedro Bernardo
    Dez 28

    Melhores leituras de 2015 - escolhas de Pedro Bernardo

    Selecção de Livros

    Repesco uma pequena lista que já deixara no Facebook (e com um acrescento). Por defeito profissional, praticamente só leio ensaio e a pouca ficção que li não me encheu as medidas, em especial Houelllebcq – O Mapa e o Território e Submissão, tendo gostado mais do primeiro do que do segundo –, que me parece um autor sobrevalorizado; mas admito que o defeito possa ser meu. Do que li, os melhores são:

    KL. História dos Campos de Concentração Nazis, de Nikolaus Wachsmann / D. Quixote. Um portento que ficará durante muito tempo como a obra de referência sobre o tema

    Racismos. Das Cruzadas ao Século XX, Francisco Bethencourt / Temas & Debates. Idem. De uma abrangência ímpar, com teses interessantes e bem fundamentadas e repleto de iconografia (pelo menos na edição em língua inglesa, a original; não li a tradução portuguesa nem a folheei).

    Europa. A Luta Pela Supremacia. De 1453 aos nossos Dias, Brendan Simms / Edições 70 (sobre este sou suspeito, pois fui eu que o publiquei na 70).

    Referência ainda a uma obra publicada pela Objectiva: O Ocidente no Divã. Uma Análise do Nazismo na Civilização Ocidental, de Jean-Louis Vullierme. Apesar da entorse ao original, no título (Le Miroir de l'Occident), é um texto interessantíssimo, que vale a pena ler para se perceber que o nazismo não é uma criação ab nihilo e onde Hitler e outros foram buscar influências.
     
    Boas Festas e Boas Leituras

  • por João Reis
    Dez 27

    Melhoras leituras de 2015 - escolhas de João Reis

    Por esta altura, é frequente pedirem-me uma lista de melhores livros do ano. No entanto, não li/leio suficientes livros editados em Portugal no ano corrente para apresentar uma lista minimamente abrangente, mesmo que considere que as listas nunca o são, por resultarem dos gostos pessoais de quem as faz e das circunstâncias que nos levam a ler estes e não aqueles livros, deixando por ler muitos que poderíamos, talvez, preferir. Servem, contudo, para dar a conhecer alguns livros que nos poderiam passar ao lado. 
    Isto dito, apresento uma lista dos livros que mais gostei de ler em 2015; podem não ser os melhores - há quem não aprecie aquilo que acho genial, e amiúde me parece que o que acham fantástico pouco mais é do que lixo -, mas são aqueles que mais gostei de ler, sem que me limitasse a livros editados este ano (poucos são aqueles editados em 2015). 
     
    Sem nenhuma ordem específica, e na língua/ edição em que os li: 

    - The Guinea Pigs, Ludvik Vakulik
    - To Hell with Cronje, Ingrid Winterbach
    - This Way for the Gas, Ladies and Gentlemen, Tadeusz Borowski 
    - Panzram: A Journal of Murder, Carl Panzram
    - Collected Short Stories, 2, W. Somerset Maugham 
    - Uma Vida à Sua Frente, Romain Gary 
    - The Celebration, Ivan Ângelo
    - Kokoro, Natsume Soseki 
    - Uma gata, um homem e duas mulheres, Junichiro Tanizaki 
    - Christina, the Girl King, Michel Marc Bouchard 
    - Kyoto, Yasunari Kawabata 
    - Frygtelig Lykkelig, Erling Jepsen 
    - A Papisa Joana, Emmanuel Rhoides 
    - Hamlet tinha um Tio, James Branch Cabell

    Quanto a estes dois, sou suspeito, porque os traduzi:
    - O Salão Vermelho, August Strindberg
    - O Tempo de sua Graça, Eyvind Johnson 


  • por E-primatur
    Nov 28
  • por E-primatur
    Nov 27

    Publicar Hitler

    tergiversações


    Chegará muito em breve às livrarias uma nova edição de Mein Kampf/A Minha Luta, de Adolf Hitler. Desde 1945 que qualquer edição da obra está proibida. O estado da Baviera, que ficou titular dos direitos de autor, sempre se opôs a qualquer reedição do texto, argumento que seria compreensível à época, considerando o conteúdo da obra e, acima de tudo, a concretização abominável de muito do que o autor nela expusera, já em 1923.

    No entanto, com o passar dos anos esse argumento foi deixando de fazer sentido, pois apenas contribuiu para que o texto circulasse clandestinamente, em versões quiçá truncadas, e adquirisse uma aura imerecida junto das franjas extremistas de direita. Estamos em crer que esta clandestinidade não contribui para o esclarecimento do público, pelo contrário.

    A edição agora publicada retoma a versão editada pela Afrodite em 1976, agora devidamente revista e cotejada com o original, e visa colmatar essa lacuna e trazer o texto para o único plano em que, no nosso entender, ele deve ser hoje lido, como documento histórico, e não ideológico. Se a filosofia editorial da E-primatur passa por publicar obras marcantes, Mein Kampf insere-se certamente nesta categoria.

    Dentro do programa editorial da E-primatur, e por oposição, poderá o leitor encontrar Os Mutilados de Hermann Ungar, o romance que encabeçava a lista de livros a destruir pelos nazis ou Bambi, de Felix Salten, um dos ódios de estimação literários de Hitler.

    O prefácio de António Costa Pinto, autor e académico que estudou e bem conhece os meandros da ideologia fascista, visa ajudar o leitor contextualizando a obra.
     
    Os Editores



  • por Hugo Xavier
    Nov 23

    Arrumar Vilhena

    tergiversações

    No seu famoso «O nome da Rosa», Umberto Eco abordava a questão da comédia enquanto género mais do que maldito, amaldiçoado. A parte da «Poética» de Aristóteles que versava o género perdeu-se e com ela o lugar da comédia entre as artes literárias.

    Ainda hoje a comédia figura entre os géneros menores, do cinema ao teatro. Também o humor na literatura tem dificuldade em arrumar-se entre as estantes da literatura sobretudo no que toca à literatura portuguesa de onde, na realidade, desapareceu no começo do século XX com o desaparecimento de escritores como Eduardo Brun, Gervásio Lobato, António Ferreira, Albino Forjaz de Sampaio, Eduardo Schwalbach, algumas coisas de Augusto Costa e alguns outros. Eça talvez tenha sido o último «grande» e Camilo tinha um humor demasiado subtil e que era perceptível para os muito poucos capazes de perceber como ele brincava (e como brincava!) com os géneros e estereótipos literários da sua época.

    Ainda assim, quase todos esses autores eram escritores "sérios" que, por vezes, tocavam o humor. A comédia na literatura é coisa menor e - espante-se - fácil. Pelo menos para a crítica e a academia. Isso compreende-se, é claro, desdenha quem não consegue comprar. E ninguém espera um crítico ou um académico de bom humor. Seria algo tão baixo e fácil como um comediante.

    Os grandes grupos livreiros pedem-nos para categorizarmos Vilhena para que saibam em que estante o arrumar. Como é possível fazê-lo? Humor? Vilhena está para lá do humor. Ficção? (mas é tão real...) Banda desenhada/cartoon? (a FNAC arrumou-o na Banda desenhada) Crítica social? (ora aí está uma categoria em falta.) Livro ilustrado? (certamente mas fica um livrinho de bolso esmagado entre álbuns de grande mérito artístico e, sobriamente "sérios".)

    Vilhena foi tudo isto e muito mais. A categoria menos «limitativa» seria "Literatura Portuguesa" mas é difícil que o aceitem lá. Afinal aquilo é humor e desenhos de mulheres voluptuosas...

    Se Gil Vicente vivesse hoje seria arrumadinho na pequena estante do Teatro e de lá não sairia. Esta é a maldição da comédia: arrancada, na noite dos tempos, da segunda parte da «Poética» de Aristóteles e, como tal, do cânone da literatura ocidental.

  • por E-primatur
    Out 24

    O Salão Vermelho de August Strindberg ou de como, daqui a um século, ainda podemos chegar a ser a Suécia deste mundo...

    Excertos

    «A situação política
    torna-se cada vez mais interessante. Todos os partidos se subornaram com presentes e contra-presentes até todos eles se terem transformado numa indistinguível massa parda. Tudo isto acabará provavelmente no socialismo. Fala-se muito em aumentar o número de províncias para quarenta e oito e considera-se agora que uma carreira ministerial é o caminho mais rápido para a promoção, sobretudo por nem sequer exigir um exame de professor da escola básica. No outro dia, estava a falar com um dos meus antigos colegas de escola (já é um ex-ministro), que afirma que é muito mais fácil do que ser Secretário Assistente. As funções parecem ser mais ou menos as mesmas que cumprem a um fiador – apenas uma questão de assinar por baixo! E não há preocupações em relação aos pagamentos porque se tem sempre subfiadores.» (tradução do original sueco por João Reis)

  • por E-primatur
    Out 23

    Uma prenda de Natal

    Boas novas
    Quando encontramos os textos e fotografias inéditos do Bernardo Santareno percebemos que o tempo não chegava para preparar a edição fazendo tratamento dos materiais inéditos a tempo de se lançar o livro ainda este ano.

    Ao conversarmos com o Vasco Silva, nosso Amigo e Padrinho do projecto E-primatur, contámos o que tinha acontecido e surgiu uma sugestão que estava pronta na sua cabeça: uma antologia de Fernando Pessoa. Vindo de quem vinha, não hesitamos.

    Como aconteceu com o livro do Vilhena e dado o prazo escasso, este projecto não passará pelo crowdpublishing, entrando directamente em pré-venda.


  • por E-primatur
    Out 13

    «Nos Mares do Fim do Mundo» de Bernardo Santareno

    Notícias
    Em 1957 e em 1958, Bernardo Santareno embarcou como médico de bordo na frota bacalhoeira portuguesa que se dirigia todos os anos para a Terra Nova e Gronelândia. Em blocos de notas, o jovem autor traçou pequenos quadros narrativos que realçavam o elemento humano rodeado pela mais austera natureza. Entre a linguagem poética, a reflexão e a narrativa, estes pequenos textos são um dos documentos mais admiráveis de uma realidade muito nossa ao mesmo tempo que uma obra literária assombrosa.

    Tínhamos previsto a publicação deste título ainda este ano mas tivemos de o passar para Fevereiro de 2016 pelo melhor dos motivos: enquanto analisávamos os blocos de notas nos quais Bernardo Santareno escrevera os textos que compõem este volume, encontrámos dois textos inéditos. Para além disso foram também encontradas mais de uma dezena de fotografias que não tinham sido incluídas nas edições anteriores do livro.

    Precisamos de algum tempo para trabalhar esses materiais.

    Por outro lado e através das redes sociais tínhamos desafiado os leitores a escolher entre duas capas:


    A capa vencedora foi a da esquerda mas houver muitos a votarem na da direita.

    Tomamos pois uma decisão: a edição que vai para livraria é a capa da esquerda mas, comprando pelo nosso sítio o leitor poderá escolher a edição com a capa da direita (da qual faremos uma tiragem menor) enviando-nos um e-mail após apoiar.

    Em breve daremos mais informações sobre os materiais inéditos.

  • por E-primatur
    Out 04

    A melhor homenagem a um autor que se vai é dar-lhe uma voz que fica

    Homenagem


    Nas livrarias em começos de Novembro.

    Trata-se de uma edição fac-similada que reúne os 3 volumes publicados pelo autor nesta série (Pré-História, O Egipto e Os Judeus). Optou-se pelo fac-simile para garantir a relação entre imagem e texto, tão importante nas obras de José Vilhena. Deu-se apenas um ligeiro tratamento para evitar que algumas intrusivas marcas tipográficas e do tempo perturbassem o prazer da leitura.

    A edição será cartonada reproduzindo nas guardas as capas a cores das edições originais. O papel do miolo é o papel reciclado cyclus que garante não apenas a opacidade preservando, dessa forma, texto e imagens, mas também porque se aproxima da tonalidade original.

    São mais de 450 paginas de saber enciclopédico sobre a pulhice humana!

    Com este volume damos início à publicação das obras do autor que inomodou e certamente incomoda muita gente mas divertiu e divertirá muitos mais.

  • por Hugo Xavier
    Set 29

    Obras de Bernardo Santareno na E-primatur

    Boas novas

    Depois de anos na mítica editora Ática, a E-primatur assume a edição das obras de Santareno, para muitos (nós incluidos) o maior dramaturgo português do século passado.

    De Bernardo Santareno (1920-1980) publicaremos ainda este ano «Nos Mares do Fim do Mundo», um dos poucos textos em prosa do autor, constituido pelos cadernos de notas e por fotografias tiradas pelo autor ao longo dos 12 meses que passou num navio da frota de pesca bacalheira portuguesa na Terra Nova.

    Trata-se não apenas de um documento imprescindível para a nossa história social, cultural e industrial mas também de um texto de grande beleza que aponta pistas muito claras para a descodificação da obra e escrita do autor.

    O objectivo continuado da publicação das obras de Santareno é precisamente o torná-las de novo disponíveis no mercado. Acreditamos que há público suficiente para, através do mecanismo de crowdpublishing do projecto E-primatur, manter a obra sempre viva e disponível. Sabemos que não é um best-seller mas é intolerável para nós que isso constitua argumento para a sua não publicação.

    Acreditamos que o mercado dará voz a Bernardo Santareno.

    Para o ano temos prevista a publicação da peça «Inferno», uma das mais importantes do autor e que está esgotada há mais de 30 anos.

  • por E-primatur
    Set 28

    Acabadinhos de fazer

    Boas novas

    Chegaram da gráfica os primeiros. No final da semana chegam todos e na próxima semana estão nos correios. É a última oportunidade para comprar em regime de crowdfunding por cerca de 2/3 do valor que o livro terá posteriormente. Só até Domingo!



  • por E-primatur
    Set 14

    Um esclarecimento

    E-primatur funcionamento

    Alguns leitores têm vindo a escrever-nos perguntando o que acontece se um livro cuja publicação anunciada está para breve não atingir o número necessário de doações.

    A maior parte dos livros que temos anunciados para publicação está coberta por investimento nosso.

    Sabíamos que demora tempo a implantar um sistema inovador como este e temos, portanto, uma verba acautelada.
     
    Hoje, por exemplo, estamos a rever a capa e a dar uma última vista de olhos ao miolo de «Os Mutilados», de Hermann Ungar, que vai entrar em gráfica e estará, em breve, disponível nas livrarias. Isto significa, por conseguinte, que as próximas semana e meia serão a última oportunidade para poder fazer uma doação e garantir o livro na sua caixa de correio sem quaisquer outros custos e por um valor inferior ao do preço de mercado.

    Obviamente, quanto mais doações recebermos que cubram o máximo de custos de edição de cada livro, mais livros poderemos vir a fazer no futuro.

    Aproveitem e/ou passem a palavra; neste projecto, os leitores são os arautos e esse é o melhor apoio que nos podem dar: a divulgação.

    Se casa leitor satisfeito trouxer dois amigos que ou passem a palavra a outros amigos ou façam doações muito rapidamente este projecto poder tornar-se auto-suficiente e crescer publicando mais livros.


  • por João Reis
    Set 10

    Traduzir Strindberg em tons de vermelho

    Labor Editorial

    O tradutor vasculha nos seus papéis, procura, encontra, lê e relê, confirma. Será possível? As muitas horas à secretária tê-lo-ão prejudicado, a má postura terá afectado o bom funcionamento do encéfalo? Ninguém o sabe! Ah, aquilo que a ciência desconhece ainda! Mas, de facto, está lá escrito 1879. Sim, foi esse o ano da primeira edição, e nenhuns óculos, lupa ou microscópio alterarão esse facto.1879! Ora, mas isso foi no tempo dos afonsinhos, em mil oitocentos e troca o passo, uma daquelas épocas de daguerreótipos, sépia, carroças e juntas de bois nas ruas da cidade. E em Estocolmo? Sim, sem dúvida!

    O espanto do tradutor aumenta, pergunta-se como será possível, tudo isto é bizarro mas, com o diabo, não foi ele quem sugeriu a publicação do livro? Com que se espanta o idiota, se já conhecia o livro? Estará a perder capacidades, o seu cérebro mirra? É bem possível, e a ciência nem tudo sabe, mas o que todos podem saber é que O Salão Vermelho, a obra que tornou famoso August Strindberg – nome incontornável da literatura sueca e mundial –, foi publicado em 1879. Ora, e qual o motivo de tanto espanto quando tínhamos já a Bíblia, a Ilíada e a Odisseia? Bem, bem, a admiração não se deverá ao ano de publicação, pois os monges copistas eram já uma relíquia do passado, uma classe extinta, e não era assim tão difícil imprimir um livro, mas o conteúdo do livro, esse, é algo que pode e deve ser admirado. Porquê? É muito simples: um grande escritor – um verdadeiro escritor – é aquele que, em vez de se preocupar com jogos de palavras, trocadilhos, virtuosismos linguísticos, roupa a secar em estendais ou lirismos bacocos, tem a capacidade de observar e descrever aquilo que permanece inalterado e, em última instância, serve de fundamento a uma obra imortal: a relação do homem consigo, com os outros, com o mundo. Isso não mudou, e por mais que a tecnologia separe 1879 de 2015, o homem é o mesmo.

    Pessoas invejosas, mesquinhas, corrupção, mentiras, compadrios, obscuras práticas empresariais, a contínua luta do indivíduo íntegro contra um sistema que apodrece por dentro? Sim, está lá tudo, como constata Arvid Falk, o aspirante a escritor que se demite de uma função pública corrupta e incompetente para encontrar uma situação pouco diferente na área editorial e no jornalismo em que, por necessidade, tem de trabalhar. Escritores, pintores, escultores, actores, artistas em geral? Ah, sim, também esses rodeiam Falk, e também eles passam fome, também eles têm de engolir o orgulho, sorrir, calar-se, dar palmadinhas nas costas, vender-se (é, ou não, a mais velha profissão do mundo?) para subir a estreita escada do sucesso. Alguns conseguem-no, outros não.

    A verdade é que não mudamos, o mundo é sempre o mesmo, e o tradutor e editor pensa como é estranho que em Portugal nunca se tenha publicado a ironia de Strindberg n’ O Salão Vermelho, como nunca se deu aos leitores a oportunidade de conhecer todas aquelas personagens que lhe proporcionam divertidas horas de tradução, como é possível que tal obra tenha, até hoje, permanecido inédita no nosso país.

    A resposta, contudo, talvez não seja muito difícil de encontrar: ver o nosso reflexo num espelho nem sempre é fácil. Mas há que fazê-lo, ou corremos o risco de sairmos à rua com a cara suja. Eis a oportunidade. 

  • por Hugo Xavier
    Set 08

    A economia de editar livros

    O mundo dos livros

    (fotografia de Wayne Wilson-Wong)

    Quando a E-primatur foi pensada, foi-o por contraponto a um estado de situação no mercado da edição. Não apenas nós, editores, conhecemos o nosso meio e sabemos qual a lógica de funcionamento das editoras e grupos editoriais como somos igualmente leitores e compramos livros e temos amigos que são grandes leitores. Esta conjugação permite ao mesmo tempo analisar o interior e o exterior do negócio da edição.

    Sim, porque a edição, como qualquer actividade, tem a sua economia. Só um puritanismo inocente e desligado do mundo é que não percebe que para se fazer o livro seguinte, a seguinte peça de teatro, o filme, a música, é preciso que o anterior tenha resultado razoavelmente. A alternativa é não se viver do que se faz na actividade de produção cultural. A outra alternativa é a possibilitada pelo sistema que seguimos utilizando o crowdpublishing.

    A natureza do negócio da edição, mais do que qualquer outro factor, define, na maior parte das vezes, que autores entram no cânone (a lista de autores e obras consagrados de uma determinada literatura). Muito mais que a academia, a crítica ou sequer a vontade do leitor (que pode um leitor contra o "Está esgotado"?), é a actividade da edição que define o que entra e sai do cânone. Mesmo num país como o nosso em que a academia nunca se interessou por estabelecer um cânone e deixou uma tal tarefa aos professores que definem os programas dos diversos graus de ensino escolar (ou talvez precisamente por isso) os exemplos são fartos: Bernardo Santareno sai do programa escolar como dramaturgo maior das letras portuguesas para ser substituído por um autor que não desmerece mas não está à altura do cargo laureado contudo pertence ao catálogo de um dos maiores grupos editoriais nacionais. É apenas um exemplo, outros há e muitos como o da autora, uma das maiores do século XX, que sai dos programas escolares porque a editora que a publicava foi comprada e a direcção da nova editora optou apenas por publicar edições de qualidade superior com preços proibitivos para a maior parte das famílias.

    A quem quiser perceber como funcionam estas coisas, recomendo vivamente um livro de André Schiffrin, filho de Jacques Schiffrin, o criador da casa editorial e conceito das éditions de la Pléiade. André, criado nos Estados Unidos após a fuga dos seus pais para aquele país, veio a tornar-se um dos maiores editores do seu país de adopção e um dos poucos a pensar de forma séria os modelos e caminhos da edição. André Schiffrin escreveu o já mítico «O negócio dos livros; Como os grandes grupos económicos decidem o que lemos» publicado entre nós pela livraria editora independente Letra Livre.

    E que não se pense que este é o típico discurso da teoria da conspiração de David contra Golias. É um retrato da situação da economia das indústrias culturais que vale para a área do livro como para quase qualquer outra. Ontem mesmo, num ensaio apocalíptico, a escritora Fiona O'Connor descrevia a situação actual nas páginas do Irish Times.

    André Schiffrin acreditava ter encontrado a solução ideal para a New Press que tinha criado depois de sair de um grande grupo editorial e na qual trabalhou até à sua morte há dois anos. Nós acreditamos ter encontrado a nossa (que, aqui para nós, até é melhor porque está mais próxima do leitor).

  • por Hugo Xavier
    Set 01

    Cartas Persas

    Anúncios

    A Editora Tinta-da-China, na sua excelente colecção de viagens, anunciou a edição do livro CARTAS PERSAS de Montesquieu, obra que também fazia parte do nosso catálogo.

    O objectivo da E-primatur é a publicação de obras que estão em falta no mercado editorial português, pelo que retiraremos este título do nosso catálogo e, dentro de dias, anunciaremos o seu substituto.

    Parabéns pela iniciativa, Tinta-da-China.

  • por Hugo Xavier
    Ago 28

    A astronómica lista dos 100 melhores romances escritos em língua portuguesa

    Listas

    Recentemente Robert McCrum foi convidado pelo jornal The Guardian para elaborar a sua lista dos 100 melhores romances escritos em língua inglesa. Numa literatura tão rica e cujo universo geopolítico é tão abrangente como o da língua ingles, a lista gerou polémicas e grande discussão.

    E nós por cá?

    Quero deixar o desafio:

    Quais são os 100 romances da literatura de língua portuguesa na vossa opinião?


    A página do Facebook da E-primatur está aberta à colaboração de todos, seja para listas inteiras, seja para sugestões individuais. Ah e nada de batotas: são mesmo romances, nada de novelas ou contos. Esses ficam para outra lista.

    PARA VOTAR: https://epoll.me/vote/ACjN2kOfW1g/quais-os-100-melhores-romances-nao-sao-contos-novelas-ou-outros-escritos-em-lingua-portuguesa-acrescentem-opcoes-e-ou-votem?fb_ref=Default

    Recomendo que cada um faça a sua lista dos romances que ache representativos da língua portuguesa. Não sei se vão chegar aos 100, eu cheguei aos 85 com dificuldade.

    Depois vão ao sítio acima indicado e votem. Podem também acrescentar títulos que lá não se encontrem.

    Visitem regularmente a votação para verem os resultados pois alguém pode ter acrescentado um romance do qual se tenham esquecido.

    A minha lista (que, como todas as listas pessoais, está sujeita ao que li e ao que gosto):
    1. - Húmus, de Raul Brandão
    2. - A Noite e o Riso, de Nuno Bragança
    3. - Carlota Ângela, de Camilo Castelo Branco
    4. - A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco
    5. - Zero, de Ignácio de Loyola Brandão
    6. - A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
    7. - Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio
    8. - O Conde de Abranhos, de Eça de Queirós
    9. - As Personagens, de Ana Teresa Pereira
    10. - O Movimento Pendular, de Alberto Mussa
    11. - Todos os nomes, de José Saramago
    12. - Macunaíma, de Mário de Andrade
    13. - Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão
    14. - O Paraíso é Bem Bacana, de André Sant'Anna
    15. - As Naus, de António Lobo Antunes
    16. - Adoecer, de Hélia Correia
    17. - Se Eu Fechar Os Olhos Agora, de Edney Silvestre
    18. - Aparição, de Virgílio Ferreira
    19. - O Amor é Fodido, de Miguel Esteves Cardoso
    20. - Capitães de Areia, de Jorge Amado
    21. - Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano
    22. - O Eleito do Sol, de Arménio Vieira
    23. - A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro
    24. - O Memorial do Convento, de José Saramago
    25. - Sou Toda Sua Meu Guapo Cavaleiro, de Alexandre Pinheiro Torres
    26. - O Que Diz Molero, de Diniz Machado
    27. - Opisanie Świata, de Veronica Stigger
    28. - Sinais de Fogo, de Jorge de Sena
    29. - O Dia Cinzento, de Mário Dionísio
    30. - Memórias Laurentinas, de Agustina Bessa-Luís
    31. - A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
    32. - A Sucessora, de Carolina Nabuco
    33. - Davam Grandes Passeios aos Domingos..., de José Régio
    34. - Bolor, de Augusto Abelaira
    35. - Nove Noites, de Bernardo Carvalho
    36. - O Bosque Harmonioso, de Augusto Abelaira
    37. - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira
    38. - Voltar Atrás Para Quê?, de Irene Lisboa
    39. - Nova Sapho, de Visconde de Villa-Moura
    40. - Balada da Praia dos Cães, de José Cardoso Pires
    41. - Heliogabalus, de Luís Alves da Costa
    42. - A Chave de Casa, de Tatiana Salem Levy
    43. - O Barão de Lavos, de Abel Botelho
    44. - Cómicos, de Antero de Figueiredo
    45. - Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz
    46. - Novas do Achamento do Inferno, de Fernando José Rodrigues
    47. - Jogo da Cabra-Cega, de José Régio
    48. - A Casa Velha, de José Régio
    49. - Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar
    50. - Natureza Morta, de Paulo José Miranda
    51. - Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira
    52. - Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
    53. - Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto
    54. - A Polaquinha, de Dalton Trevisan
    55. - Os Espiões, de Luiz Fernando Veríssimo
    56. - Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro
    57. - As Meninas, de Lygia Fagundes Telles
    58. - O Mez da Grippe, de Valencio Xavier (não sei se conta como romance)
    59. - A Chuva Imóvel, de Campos de Carvalho
    60. - A Viúva Simões, de Júlia Lopes de Almeida
    61. - Os Armários Vazios, de Maria Judite de Carvalho
    62. - Crónica de uma Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso
    63. - Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida
    64. - Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro
    65. - Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino
    66. - O Drible, de Sérgio Rodrigues
    67. - A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro
    68. - O Ateneu, de Raul Pompéia
    69. - O Dia em que Matei Meu Pai, de Mário Sabino
    70. - O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho
    71. - Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho
    72. - Os ratos, de Dyonélio Machado
    73. - Senhora, de José de Alencar
    74. - A Paixão Segundo G. H., de Clarice Lispector
    75. - Mário, de Silva Gaio
    76. - Janika, O Livro da Noite e do Dia, de Vitório Kali
    77. - O Prato de Arroz Doce, de Teixeira de Vasconcelos
    78. - Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado
    79. - O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano de Almeida
    80.  - Mazagran, de J. Rentes de Carvalho
    81.  - Madrugada na Tua Alma, de Gabriel Magalhães
    82.  - Deixem passar o homem invisível, de Rui Cardoso Martins
    83.  - Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares
    84.  - Materna Doçura, de Possidónio Cachapa
    85.  - Angústia Para o Jantar, de Luís Sttau Monteiro [lembrado pelo Nuno Fonseca]
    86.  - Elói: ou Romance numa cabeça, de João Gaspar Simões

    O "Húmus" é o único que tem lugar cativo no topo da lista, a restante ordem deve-se à ordem pela qual os fui tirando das prateleiras.

    Quais são os vossos?

  • por E-primatur
    Ago 24

    Os fantasmas de Franz Polzer

    Excertos


    « [...] A tudo isto se somou um certo acontecimento que só pode ser mencionado com toda a reserva. Polzer tinha então catorze anos e uma fértil imaginação juvenil instilada pelo ódio. Das relações entre homem e mulher não tinha outra ideia a não ser que eram algo horrendo e, por si só, repugnante. O mero imaginar de um corpo de mulher nu provocava-lhe asco. Um dia, entrara no quarto da tia quando ela se estava a lavar. A imagem do seu peito ressequido, de carnes flácidas dependuradas, ficou de tal maneira gravada que jamais conseguiu esquecer. Certa noite, estava ele no escuro corredor na parte de trás da loja, o armário do pão aberto, quando viu a porta do quarto da tia a abrir-se. Encostou-se todo contra à parede. Pela fresta iluminada da porta surgiu o seu pai em roupa de dormir. Atrás dele vislumbrou por momentos, como uma sombra, a figura da irmã do pai. A tia trancou a porta pelo lado de dentro.

    O pai passou muito perto dele. A sua camisa estava aberta e Polzer, apesar do escuro, achou ter conseguido ver o seu peito peludo. Por um instante, sentiu o cheiro de pão acabado de cozer, que estava entranhado no pai por este estar sempre na loja. Polzer susteve a respiração e manteve-se imóvel, mesmo depois da porta do quarto do pai se ter fechado atrás dele há algum tempo.

    Este acontecimento despertou em Franz Polzer sensações que trariam algumas das mais duradouras consequências para a sua vida futura. Apesar de ter vislumbrado apenas a sombra da tia, convencera-se de que esta estava nua. Desde então, era perseguido por imagens de situações que certamente ocorreriam durante a noite entre o pai e a irmã do pai. Polzer não tinha mais nada para as sustentar a não ser este único acontecimento nocturno. E depois disso não acontecera nada mais que também pudesse confirmar essa sua presunção.

    Desde então, Polzer passava as suas noites até quase de manhã sem pregar olho. Ficava à escuta. Parecia-lhe ouvir portas a ranger e passos cautelosos sobre o chão carcomido da velha casa. Despertava de um leve dormitar convencido de que havia ouvido um grito abafado. Sentia-se repleto de um asco amargo. Mas a curiosidade impelia-o a esgueirar-se, noites dentro, para junto da porta da tia. Nunca lograra ouvir outra coisa que a respiração dela.

    O pai sovava Franz Polzer com frequência, e a tia segurava-o. Quando nas noites em que havia sonhado com ele e sentido um medo infindável por o ter visto no sonho, com as suas roupas sujas, a sua cara vermelha e embrutecida, a tia por detrás, instando-o a torturá-lo e a sová-lo ainda mais, nos dias seguintes, quando o encarava, queria ser sovado de novo. Parecia-lhe que tinha que tornar tudo real, também o seu ódio pelo pai, como se este o houvesse mesmo esmurrado nas costas. Nessas alturas sentia-se crescido, era isso que sentia, mas mais fraco, muito mais fraco que qualquer um.»

    Excerto de "Os mutilados" de Hermann Ungar

  • por E-primatur
    Ago 22

    Strindberg escreve sobre como se fazia o sucesso de um autor no seu tempo

    Excertos

    «Arvid Falk começaria por se aproximar do poderoso Smith – este último adoptara tal nome devido a uma excessiva admiração por tudo o que fosse americano adquirida, na sua juventude, numa curta visita a esse grande país –, uma temida figura com mil tentáculos, que era capaz de criar um autor em doze meses, mesmo quando muito mau. O seu método era bem conhecido, mas ninguém ousava empregá-lo, pois exigia um descaramento sem precedentes. Qualquer autor sob a sua protecção tornava-se, inexoravelmente, conhecido e, por isso, Smith via-se rodeado de autores ainda desconhecidos. O seguinte caso ilustra o seu modo irresistível de promoção de pessoas apesar da opinião do público e dos críticos. Um jovem, que nunca escrevera nada antes, escreveu um mau romance, que, em seguida, apresentou a Smith.
    O último gostou, por acaso, do primeiro capítulo – nunca lê mais do que isso – e decide que o mundo deveria ter um novo autor. O livro surgiu com as seguintes palavras na contracapa: «Sangue e Espada. Um romance de Gustaf Sjöholm. Esta obra do jovem e promissor escritor, cujo nome se tornou largamente conhecido e muito respeitado, etc… profundidade de caracterização… clareza… força. Recomendamo-lo vivamente ao público que aprecia romances.» O livro saiu a 3 de Abril. A 4 de Abril, foi alvo de uma recensão no jornal nacional de grande circulação, O Manto Cinzento, do qual Smith era proprietário de 50 acções. As últimas palavras da recensão foram: «Gustaf Sjöholm já ganhou nome por seu próprio mérito, por isso, não precisamos de o fazer por ele. Recomendamos esta obra não só a romancistas, mas também a leitores de romances.» A 5 de Abril, o livro foi alvo de publicidade em todos os jornais nacionais e repetiram-se as seguintes palavras no anúncio: «Gustaf Sjöholm já ganhou nome por seu próprio mérito, por isso, não precisamos de o fazer por ele (O Manto Cinzento)».
    Nessa mesma noite, surgiu uma recensão crítica n’ O Incorruptível, um jornal que ninguém lia. Aí, o livro foi descrito como o epítome do lixo literário, e o crítico jurou que Gustaf Sjöblom (erro deliberado do crítico) não tinha nome nenhum. Mas como ninguém lia O Incorruptível, a oposição continuou sem se fazer ouvir. Os outros jornais nacionais, que não queriam que as suas opiniões entrassem em conflito com as do estimado O Manto Cinzento, e receosas de enfurecer Smith, utilizaram termos brandos, embora não tenham passado disso. Acreditavam que Gustaf Sjöholm poderia perfeitamente, com tempo e esforço, chegar a criar nome por seu mérito.
    As coisas serenaram durante alguns dias, exceptuando o facto de todos os jornais conterem o anúncio – em negrito n’ O Incorruptível – já conhecido de «Gustaf Sjöholm já criou nome por seu próprio mérito.» E, depois, apareceu um artigo no jornal regional Miscelâneas de X-köping que lamentava o tratamento deplorável que os jovens autores recebiam na imprensa nacional.
    O colaborador exaltado concluía: «Gustaf Sjöholm é pura e simplesmente um génio, por muito que idiotas intelectualizados o neguem.»
    No dia seguinte, o anúncio voltou a aparecer em todos os jornais, desta vez declarando que «Gustaf Sjöholm já tem nome (O Manto Cinzento). Gustaf Sjöholm é um génio (Miscelâneas de X-köping)». O seguinte número da revista O Nosso País, publicada pela editora de Smith, continha o seguinte aviso na capa: «Temos o prazer de informar os nossos muitos leitores de que o muito respeitado escritor Gustaf Sjöholm nos prometeu um conto inédito para o nosso próximo número, etc.» Estes foram os anúncios nos jornais. Depois, no Natal, chegou o almanaque O Nosso Povo. Entre os autores que figuravam na página de título – Orvar Odd, Talis Qualis, etc., etc., encontrava-se Gustaf Sjöholm.
    Não havia dúvida: apenas oito meses depois, Gustaf Sjöholm tinha nome. E os leitores? Não tinham escolha e restava-lhes aceitar. Tinham somente de entrar numa livraria e ver o seu livro para terem de o ler. Não conseguiam pegar num jornal sem o verem anunciado. Chegava a ser impossível realizar actividades corriqueiras sem se depararem com o seu nome impresso: as donas de casa encontravam-no nos seus cestos de compras todos os sábados, as criadas transportavam-no da mercearia até casa, os varredores tiravam-no das ruas e os cavalheiros guardavam-no no bolso da sua camisa de noite.»
    Excerto de O Salão Vermelho, romance a publicar pela E-primatur em finais de Outubro de 2015.

  • por E-primatur
    Ago 05

    Bem-vindos

    Boas-vindas

    A E-primatur chegou.
    Somos um projecto diferente e pensado para quem realmente gosta de bons livros e boa literatura. Para nós é essencial contactar os leitores pois queremos que nos ajudem a construir este projecto. Gradualmente e ao longo do primeiro ano o leitor terá um papel crescente e efectivamente construtivo na E-primatur.
    Como somos um projecto inovador, gostaríamos de saber o que acham daquilo que nos propomos fazer.
    O sítio está ainda "em obras" mas o essencial já pode ser visto.
    Esperamos que gostem e que queiram construir esta editora connosco.

    Ao longo das próximas semanas vão aparecer várias novidades. Registem-se (no canto direito do Menu) e/ou subscrevam o nosso boletim (no rodapé do sítio)

    Obrigado!

Venha construir esta editora connosco