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Titulo A Testemunha - Contos Completos
Autor Graciliano Ramos
Género
Contos
Proposto por
Hugo Xavier
Editor
Hugo Xavier
Formato
15,5 x 23,5 cm
N.º Páginas Estimado
420
Data Estimada
Maio de 2026
Notas
A prosa que despojou a língua até ao osso e fez do silêncio uma força moral regressa aqui em toda a sua extensão — do sertão trágico aos contos para jovens leitores.
Figura central da geração de 30, Graciliano Ramos impôs ao romance e ao conto brasileiros uma disciplina inédita de linguagem e uma exigência ética rara. A sua obra, marcada por uma lucidez implacável e pela recusa sistemática do ornamento supérfluo, transformou o regionalismo numa literatura de ressonância universal. Influenciando decisivamente escritores, críticos e leitores no Brasil e fora dele, Graciliano consolidou uma tradição de rigor estilístico que permanece como referência maior na língua portuguesa.
Esta recolha apresenta, pela primeira vez em volume único, o romance em contos Vidas Secas, paradigma de contenção expressiva e de densidade humana, juntamente com todos os contos para adultos do Autor — incluindo textos que não eram reunidos em livro desde os anos 40 do século XX — e ainda a totalidade da sua produção destinada a jovens e crianças. O conjunto permite acompanhar a coerência profunda de uma escrita que, sob aparente simplicidade, revela uma arquitectura narrativa de precisão quase geométrica, onde cada frase parece ter sido medida, pesada e depurada até ao limite.
Seca, exacta, cortante, a prosa de Graciliano Ramos trabalha a elipse, o silêncio e a economia verbal como instrumentos de tensão moral. As suas personagens, frequentemente situadas no Nordeste brasileiro, transcendem o contexto geográfico para encarnar conflitos universais: a luta pela dignidade, o peso da opressão social, a solidão, a consciência da própria fragilidade humana. Mesmo nos textos destinados a leitores mais novos, mantém-se a clareza austera, a sobriedade vocabular e a confiança na inteligência do público, sem concessões sentimentalistas nem simplificações artificiais.
Não por acaso, a crítica tem reconhecido a sua grandeza com formulações inequívocas. Para Antonio Candido, «Graciliano Ramos é o maior romancista do Nordeste e um dos maiores da língua portuguesa». Alfredo Bosi sublinhou que «A sua prosa é seca como a paisagem que descreve, mas profundamente humana». Otto Maria Carpeaux viu em Vidas Secas a prova de que «Em Vidas Secas, o drama social atinge uma expressão de universalidade trágica». Franklin de Oliveira afirmou que «A grandeza de Graciliano Ramos está na disciplina extrema da linguagem e na recusa do ornamento». Já Susan Sontag observou: «Poucos escritores alcançaram tamanha intensidade moral com tão reduzido excesso retórico». José Lins do Rego reconheceu que «Graciliano Ramos deu ao romance brasileiro uma dimensão psicológica rara». Carlos Drummond de Andrade falou da sua obra como «um testemunho de lucidez implacável». Harold Bloom destacou que «Ramos escreve com uma severidade que recorda Kafka, permanecendo, contudo, profundamente enraizado no Brasil». Pierre Rivas afirmou que «Soube fazer do silêncio e da secura uma força poética incomparável». E Nelson Werneck Sodré resumiu: «A sua linguagem é dura, exacta e cortante — como a realidade que retrata». Reunidas, estas vozes confirmam o lugar singular de Graciliano Ramos: um clássico moderno cuja austeridade formal é inseparável da sua força moral e da sua permanente actualidade.
A vida de Graciliano Ramos confunde-se com a construção de uma das prosas mais rigorosas e moralmente exigentes da literatura do século XX.
Nascido a 27 de Outubro de 1892, em Quebrangulo, Alagoas, Graciliano Ramos cresceu num ambiente rural marcado por instabilidade económica e deslocações constantes da família pelo interior nordestino. Trabalhou desde cedo como ajudante de comércio, revisor tipográfico, jornalista e cronista; foi também proprietário de loja, funcionário público e presidente da Câmara Municipal de Palmeira dos Índios, cargo em que se distinguiu pelos relatórios administrativos redigidos com notável clareza e precisão estilística. Viveu longos períodos de dificuldades financeiras, agravadas por negócios falhados e pela irregularidade dos rendimentos literários. Em 1936 foi preso pelo regime de Getúlio Vargas, sob suspeita de actividades subversivas, permanecendo encarcerado durante vários meses sem acusação formal. A experiência marcá-lo-ia profundamente e seria mais tarde fixada em Memórias do Cárcere. Faleceu no Rio de Janeiro, a 20 de Março de 1953, vítima de cancro do pulmão, deixando inacabados alguns projectos literários.
A sua obra ficcional inclui romances capitais como São Bernardo, Angústia e Vidas Secas, além de contos, crónicas e literatura destinada a jovens leitores, como A Terra dos Meninos Pelados. A sua escrita caracteriza-se por uma economia verbal extrema, por uma construção sintáctica depurada e por uma análise psicológica e social despojada de sentimentalismo. Traduzida em numerosas línguas e objecto de contínuas reedições críticas, a sua obra consolidou-se como um dos pilares do modernismo brasileiro e como referência maior no cânone da língua portuguesa.
A influência de Graciliano Ramos ultrapassou o estrito domínio literário. Vidas Secas foi adaptado ao cinema por Nelson Pereira dos Santos em 1963, numa versão que se tornou símbolo do Cinema Novo; Memórias do Cárcere conheceu igualmente adaptação cinematográfica pelo mesmo realizador, em 1984. Diversos textos seus foram transpostos para teatro, televisão e outras linguagens artísticas, confirmando a força dramática e a actualidade dos seus temas. Lido como cronista da realidade nordestina, como analista da consciência individual sob opressão e como estilista exemplar, Graciliano Ramos permanece uma figura axial da modernidade literária lusófona, cuja obra continua a exercer influência decisiva sobre escritores, críticos e criadores de várias gerações.
Sem informação.
Impresso em papel snowbright com certificado ambiental.

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