A simbologia e objectivos do golpe militar do 28 de Maio, sobre o qual passa este ano um século, foram deturpados pelo Estado Novo que, como a Igreja Católica tinha feito séculos antes, se apropriou dos factos e da data para fins próprios. Mas então qual era a verdadeira ambição desse golpe?
Uma análise da revolta militar de 28 de Maio de 1926 como ruptura decisiva com a ordem constitucional da I República e mostra como um movimento apresentado como regenerador acabou por ser esvaziado e reconfigurado no interior da Ditadura Militar, até abrir caminho ao Estado Novo.
No início, Gomes da Costa procura transformar o pronunciamento numa revolução nacional contra a ditadura dos partidos, prometendo um governo forte que, mais tarde, devolveria poderes a uma verdadeira Representação Nacional de base municipalista. Em Lisboa, porém, Mendes Cabeçadas conduz uma transição com aparência de legalidade e centra-se sobretudo na ordem pública, instalando-se rapidamente uma bicefalia (dois centros de poder) e divergências profundas sobre o futuro do regime: reforma dentro da República versus criação de um “Novo Estado”.
Aqui se destaca o programa de Gomes da Costa, influenciado pelo ideário do Integralismo Lusitano. O seu programa de governo incluía medidas sobre família, educação, economia e religião, mas propunha também um governo presidencialista e uma representação política de base municipal e sindical-corporativa (sem partidos ideológicos) em duas câmaras – Câmara dos Municípios e Câmara das Corporações. Apesar de alguns passos iniciais, o projeto colapsou com o golpe de 9 de julho de 1926, quando Gomes da Costa é afastado e deportado, e o rumo do processo passa a ser definido por outros chefes militares e, mais tarde, progressivamente, por Oliveira Salazar.
Segue-se a trajetória das fraturas integralistas e a tentativa de manter vivo o ideal municipalista e sindical-corporativo, primeiro com esperança nas palavras de Salazar (1930) e depois com forte desilusão quando o projeto constitucional do regime (1932/33) consolida um modelo centralizador, culminando na adoção de um regime de partido único. É nesse contexto que surge e é reprimido o Movimento Nacional‑Sindicalista, movimento antitotalitário dirigido por Alberto Monsaraz e Rolão Preto, que desafia a Salazarquia e acaba proibido em 1934.
A conclusão sustenta que a morte do espírito do 28 de Maio resulta de um processo de apropriação política: o movimento que prometia regeneração pela representação municipal e pluralidade social foi reinterpretado como mito fundador de um regime centralizado e autoritário, que neutralizou as suas linhas programáticas originais.